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sexta-feira, 28 de julho de 2017

História de Garanhuns (PE) Parte IV

Zumbi dos Palmares.
O grupo sertanista Domingos Jorge Velho uma vez convidado que foi para combater os quilombolas no sertão dos Palmares, pelo Governador D. João da Cunha Souto Maior, após a lavratura do contrato no dia 3 de março de 1687, quando apresentou as suas reivindicações, o Governador Geral, D. Matias da Cunha, o envio para os sertões do Rio Grande do Norte e do Piauí, a fim de exterminar os silvícolas de raça Cariri (Janduins e Canindés) que se haviam rebelado e assolavam aquelas capitanias do Nordeste.

Acompanhado do Capitão Ajudante Luís da Silveira Pimentel, do Capitão Cristovão de Mendonça Arraes, do Capitão Antônio Mendes da Silva, do sargento-Mor Miguel Coelho Gomes, seu filho, pôs-se em marcha, naquela data de 3 de março, com os seis mil homens, segundo assevera Robert Southey, à frente do seu terço composto de 850 índios frecheiros e de 150 soldados brancos, como ele próprio confirmou depois em carta,  escrita do seu punho a EL-Rei D. Pedro II "desta guerra estava formado o meu terço, a saber de oitocentos e tantos índios de cento e cinquenta brancos, quando ao chamado de Vossa Majestade e do seu Governador João da Cunha Souto Maior".

Esta campanha de extinção do gentio Cariri durou cinco anos (1687 a 1692), em que os silvícolas desolados e batidos pediram a paz, que o Governador Feral D. Antônio Luís Gonçalves da Câmara Coutinho, sucessor de D. Matias da Cunha, lhes concedeu pelas capitulações de 10 de abril de 1692, que Ernesto Enes cita e transcreve o seguinte trecho da carta datada de 18 de junho do mesmo ano, em que diz: "Em 17 de abril deste ano, vieram a esta cidade (do Salvador) os dois maiorais Tapuias, moradores na Capitania do Rio Grande, Campos do Assu, que há 5 para 6 anos fazem guerras aquela Capitania, com notável dano dela, e me vieram pedir pazes, e também em nome do seu rei Canindé, eu lhas concedi por me parecer conveniente ao serviço de Deus e de Vossa Majestade e o pouco proveito que se tem tirado daquela guerra e a despesa que nela se tem feito", e cujas capitulações eram as que seguem na linguagem em que  foram apresentadas: "Em 5 de abril, deste presente ano chegaram a esta cidade da Bahia, Joseph de Abreu Vidal, tio do Canindé rei dos Janduins, maioral de 3 aldeias sujeitas ao mesmo Rei, e Miguel Pereira Guaveju Pequeno, maioral de 3 aldeias sujeitas também ao mesmo rei Canindé; e com eles o Capitão João Paes Floriano Portuguez, em nome do seu  sogro putativo chamado Hhongugé, maioral da sua aldeia Sucuru, da mesma nação Janduin, dividida em 22 aldeias, sitas no sertão que cobre as capitanias  de Pernambuco, Itamaracá, Parahyba e Rio Grande, nas quais há de 13 para 14 mil almas e 5 mil homens de arcos, destros nas armas de fogo; e vindo estes maiorais nomeados com mais de 15 índios e índias que os acompanhavam à presença do sr. D. Antonio Luiz Gonçalves da Câmara Coutinho, Governador Geral do Estado do Brasil, lhe representou o Principal Joseph de Abreu Vidal, em língua portuguesa não bem falada, e pelo dito Capitão João Paes Floriano, seu interprete, foi dito que eles vinham de 380 léguas a pedir e estabelecer com o dito sr. General, em nome do rei dos Janduins-Canindé, uma paz perpetua para viver a sua nação e a portuguesa como amigos".

Apaziguados os ânimos do gentio Cariri e ferro e a fogo, pelas tropas aguerridas do grande sertanista Domingos Jorge Velho, que deixaram os campos dos rios Assu e Piranhas, bem como das serras do Araripe e do Ararobá talados, com o  consequente morticío de milhares de silvícolas das tribos Canindé, Janduin, Icó e Sucuru, regressou, então, o intrépido Mestre de Campo, em fins de 1692, aos campos dos Unhanhu, ou campos dos Garanhu, em cujas cercanias, nos bosques frondosos de serras escarpadas, permaneciam emboscados os pretos dos quilombos.

Assim era a situação na serra da Barriga, nas proximidades de União dos Palmares, onde se havia estabelecido em mucambos, que dominavam penedias e escarpas, rodeados de profundos fojos e cercados de sucessivas estacadas, o rei Zumbi, "chefe da Tróia dos negros voltados à vida bárbara", na expressão de Oliveira Martins.

Viviam, deste modo, os quilombolas embrenhados na escuridão das florestas, nos desvãos das grotas, em vigilantes posição de tocaia, contra os brancos escravagistas.

A imensidade da mata virgem, ocupada pelos negros dispersos em seus arraiais, era um  permanente perigo que urgia remediar, máxime quando a área coberta tinha uma extensão de 1.060 léguas quadradas, constituindo um paralelograma, na citação de Ernesto Enes, "que começando na serra de Haca dos campos dos Unhanhu, corre 10 léguas ao sudoeste, e dela corta ao nordeste até topar no rio Ipojuca que são os rumos da costa de Pernambuco, desde o rio São Francisco até o Cabo de Santo Agostinho, com 20 léguas de largura".

Domingos Jorge Velho, então, após haver entregue a direção da guerra dos gentios ao seu conterrâneo, o sertanista Matias Cardoso de Almeida, a mando do Governador Geral, marchou para os Palmares, varando muitas léguas o sertão de Pernambuco, em procura dos negros rebeldes, desfalcado de mantimentos e munições.

Localizando os Palmares, a 10 de novembro de 1692, Domingos Jorge Velho e os seus homens "trataram logo de guerrear estes negros rebelados, cousa que lhe não foi fácil nesse princípio pela pouca experiência que tinham das traças, astúcias e estratagemas desse inimigo, e nenhum conhecimento das disposições destes países, mui fragoroso e mal penetráveis", segundo Rocha Pombo na sua clássica História do Brasil.

Aí encontraram os reforços que lhes havia enviado o Governador Marquês de Montebelo, assevera Ernesto Enes, "constituídos por uma tropa de 60 homens, moradores da Capitania das Alagoas e outra dos moradores do Porto Calvo, os primeiros, tanto que viram que da primeira investida não se pode levar uma cerca adiante da qual a acharam, desmaiaram, e temendo que lhes faltasse de todo o mantimento que lhes restava retiraram-se outra vez para as suas casas, e os segundos (os do Porto Calvo) fizeram o mesmo do meio do caminho...", o que obrigou a Domingos Jorge Velho, que "também estava totalmente falto de tudo e o terço muito destroçado de fomes e marchas, também descesse a buscar refazimento".

A verdade era, porém, comenta Ernesto Enes, que Domingos Jorge Velho encontrara tamanha resistência da parte dos negros, que não conseguira abrir brecha no arraial onde se achavam fortificados por "três ordens de cerca e muitos fojos e estreparia da banda de fora e da primeira carca à segunda tudo era cava, com duas andainas de torneiras, umas rentes ao chão e outras mais acima..."

Domingos Jorge Velho, então, baldo de recursos, comunicou ao Governador de Pernambuco, que "o negro está deliberado a morrer dentro da estacada, pois está inexpugnável", motivo pelo qual, assevera Rocha Pombo, "obrigaram o sertanista a retirar e o mandaram com a sua gente para uma praia deserta, sem nunca os socorrerem".

Esta praia deserta era a fluvial do riacho Paratagi, que desce da terra dos Unhanhu (Garanhun) e que, segundo Rocha Pombo, foi onde o bandeirante paulista se demorou, durante dez longos meses, imobilizado até o fim de 1693.

Domingos Jorge Velho permaneceu, portanto, empatado dez meses naquele recanto embrejado da serra dos Garanhuns, retido pelas intrigas, segundo Ernesto  Enes, "de algumas pessoas interessadas na conservação deste estado de coisas", que muito o molestaram.

O Governador Caetano de Melo de Castro, entretanto, cerrou ouvido às conversas dos mal intencionados e prestou auxílios ao Mestre de Campo paulista, com tropas e munições de guerra e, no fim "desses enfadonhos dez meses passados na praia deserta do riacho Paratagi, logo que recebeu as ditas munições de guerra a nenhuma de boca, pôs-se em marcha com o seu terço só". Pôs-se em marcha, à procura dos quilombolas, com seu terço dizimado de tanta gente, que perdera  campanha do sertão do Rio Grande do Norte, do Ceará e do Piauí, não contando, então, "mais que de seiscentos soldados do gentio e de quarenta e cinco brancos", segundo o seu próprio relato em carta de atestado, expedida logo depois da guerra.

Os auxílios enviados pelo Governador de Pernambuco, Caetano de Melo Castro, eram constituídos "de muitas pessoas ricas de Olinda e Recife, as quais voluntariamente, quiseram ir naquela expedição, impelidas do próprio valor e da vingança, que esperavam tomar daqueles inimigos pelos danos que lhes haviam causado, comandados pelo Capitão-Mor Bernardo Vieira de Melo, bem como algumas companhias mais mais luzidas tiradas dos dois terços de infantaria de Pernambuco", segundo Rocha Pombo, e gente comandada e capitaneada pelo Sargento-Mor Sebastião Dias, e outros que só "do Natal até 12 de janeiro de 1694 se lhe foram ajuntando, tropas auxiliares dos moradores e de infantaria paga, com as quais começou o bloqueio à fortificação dos negros, durante cerca de vinte e dois dias".

A cidadela negra compunha-se de "uma cerca muito forte de 2.470 braças craveiras, com torneiras a dois fogos a cada braça, com flancos, redutos, faces e guaritas, coisas antes não usadas deles; e os exteriores tão cheios de  estrepes ocultos e de fojos cheios deles, de todas as medidas, e uns de pés, outros de gargantas, outros de verílhas, que era absolutamente impossível chegar à dita cerca, ao redor".

"E por o lugar ser muito escarpado e íngreme, mal aparecia um soldado na extrema da estreparia para especular e tirar algum estrepe, que era pescado da cerca nem lhes era possível fazerem aproches, que a espessura da raizama do mato era tanto, que não dera lugar a cavar, dado que houvesse com que..."

Reunidas as forças e invadida a  cidadela negra pelo Mestre de Campo Domingos Jorge Velho e os seus comandados, na noite de 5 de fevereiro de 1694, foram impiedosamente massacrados cerca de quinhentos pretos e escravizados outros tantos, fora os que conseguiram evadir-se sem contar o avultado número de mulheres e crianças, que viviam naquele reduto fortificado.

O rei Zumbi, mal ferido, foragiu-se, com parte do seu exército, e a outra parte, vendo-se perdida, arremessou-se do alto da penedia, na qual se encastelara.

A luta foi tremenda, dentro da escuridão da noite, com refregas de lado a lado, pois os quilombolas uma vez cercados, reagiram como puderam, com "armas de fogo e flechas disparadas dos seus baluartes, bem como a água fervente e brasas acesas lançadas pelas estacadas, do que recebiam os invasores  muitas mortes e ferimentos..."

Desde modo, ficou aniquilada a célebre Tróia negra e extinta a terrível Confederação dos Palmares que muito sangue e dinheiro custou à Colônia e à Metrópole.

Em resumo, essas expedições para prear os silvícolas, combater os holandeses e exterminar os negros dos "quilombos", muito concorreram para o descobrimento e povoamento da região garanhuense.

Foi portanto, com o estabelecimento dos índios cariris nas serras componentes do sistema orográfico da Borborema, que chegaram a se situar definitivamente, nas serras isoladas de Umã, Tacaratu, Ararobá e Garanhuns, em primeiro lugar, e, em seguida, com a perseguição a esses silvícolas e combate aos escravos pretos fugidos, residentes nos Palmares, disseminados e escondidos nas penedias e pelos desvãos das grotas, dentro das matas sombrias e das caatingas espinhentas, pelos bandeirantes paulistas e pelos senhores dos engenhos de Olinda e Porto Calvo, que o povoamento daquela região planaltina se originou, abrangendo uma área aproximadamente, de 36 mil quilômetros quadrados.

Afirmou Ernesto Enes, citando um documento encontrado no Arquivo Ultramarino de Lisboa, do qual é Diretor, que a Capitania do Ararobá "cobria uma extensão de mil léguas quadradas, que constituem um paralelograma, o qual, começando na Serra da Haca, dos Campos de Unhanhu, corre dez léguas ao sudoeste e dela correndo (outras dez) ao nordeste, até topar no rio Ipojuca, que são os rumos paralelos da costa de Pernambuco, desde o rio São Francisco até o cabo de Santo Agostinho, com vinte  léguas de largura".

A serra de Ararobá, ao norte do Estado de Pernambuco, compreendia as serras de Ararobá propriamente dita, a do Cachorro, a do Gavião e a de Jacarará, aonde nesta última, na lagoa do Angu, nasce o rio Capibaribe.

Alfredo Leite Cavalcanti, no presente livro, afirma que "a região à margem direita do rio Canhoto, desde as suas cabeceiras até confrontar com  a serra dos Bois, está a cinco quilômetros a leste da cidade de São João, com uma extensão para o sul que varia de quinze a trinta quilômetros, e toda de vegetação baixa (tabuleiros) e todos os primitivos documentos que ela se referem a denominam de Campos dos Garanhu".

"Provavelmente, continua o Autor, "o nome Garanhu foi transmitido pelos índios habitantes da região aos seus descobridores, um dos quais foi Gabriel de Brito Cação".

"Este descobridor, quando passou a escritura de venda do seu quinhão de terra no sítio Buraco, em 6 de outubro de 1710, o fez com a declaração de que dentre os mais bens que tinha era uma sorte e quinhão de terras no sitio do Buraco nos garanhu o qual sítio do buraco lhe derão a ele e seus companheiros por descobrirem os garanhu".

Fonte da Pesquisa: Professor João de Deus de Oliveira Dias e do Livro "História de Garanhuns" de Alfredo Leite Cavalcanti.

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