dia dos pais

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Professor João de Deus de Oliveira: Mineralografia de Garanhuns (1954)

Corte do horizonte gnáissico leste-oeste
do Monte Sinai.
A Serra dos Garanhuns tem o horizonte de gnaisse algonquiano cortado verticalmente por um espesso dique de pegmatito que aflora na cumiada da Serra do Brejão, na Fazenda 'Brasileiro', com ocorrência de feldspatoides e outros minerais accessórios.

No centro da cidade, no Sanatório 'Tavares Correia', procedida uma sondagem na perfuração de um poço tubular, em junho de 1952, verifiquei a existência de um estrato de quartzito leitoso aos 63 metros de profundidade, e do pegmatito ao encontrar a rocha viva gnáissica, aos 110 metros.

O quartzito se encontra mais próxima da superfície, a uns cinco metros, nas grotas da Serra Branca. Capeia-o um delgado horizonte de arenito ferruginoso e espesso horizonte de argila cretácea com caolinita.

O quartzo leitoso existe em abundância, porém o quartzo hialino (cristal de rocha) se encontra em áreas restritas, nas colinas de Belamente, para os lados do Distrito dos Caetés.

O feldspato branco (ortoclasita) é mais frequente no estado de decomposição, dando origem às magníficas jazidas de argila plástica figulina das planícies e várzeas garanhuenses, bem como aos extensos leitos de caolim, existentes nas encostas escarpadas da Serra Branca e da Gruta D'água. Na generalidade, ocorrem as argilas esméticas coloridas pelos óxidos hidratados de ferro, de que resultam as limonitas (ocres) e as hematitas terrosas (rôxo-terra), francamente industrializáveis.

Aparecem às vezes pequenos derrames de minérios de ferro como a magnetita e o oligisto, aos quais se associam o manganês e o titânico.

A mica se apresenta nas duas variedades - magnesiana e potássica, verbi gratia: a biotita e a muscovita, esta última muito estimada, quando ocorre em grandes fôlhas, como precioso material diatérmico e dielétrico, ao lado da anfibolita (amianto) e da caolinita (caolim).

Nos solos áridos de Garanhuns, de possível formação crestácea, encontram-se nódulos de calcáreo amorfo, bem como, em algumas áreas, alguns depósitos de sal-gema, ou halita.

Quando às pedras preciosas, ou semi-preciosas, no quartzo ocorrem as ametistas, as turmalinas, os pórfiros, etc., nos arenitos, os silex com as calcedônias, as ágatas, os jasps e, ainda, as opalas ou sílica hidratada; no pegmatito ocorrem as águas marinhas e o berilo com o glucínio; no oligisto (itabirito), o ouro; no espodumênio existe do lítio, cujo teor bem sensível carateriza as águas minerais naturais da região, e na anfibolita (asbesto), o amianto, tão útil e tão empregado na indústria  termoelétrica.

São carentes de pesquisa os ricos aluviões terciários, onde se podem constatar as areias monazíticas com  com o tório, a columbita com o tanalato de nióbio, a chelita com o tungstênio ou  volfrânio, além de outros minérios preciosos e raros como o urânio, donde procede a radioatividade das águas minerais da vizinhança, como Iraci (São Bendito) que possui 12 unidades Mache.

Quanto aos calcáreos cretáceos não há ocorrência ainda verificada, conquanto possam existir, por serem de idade muito antiga e permanecerem circunscritos a áreas restritas, muito profundamente, que caraterizam a Série Bambuí, segundo Luiz Flôres de Morais Rêgo.

Os calcáreos dolomíticos (magnesianos), mais recentes, ocorrem nos leitos das lagoas ou nos caldeirões, formando pequenos jazigos das ossadas de vertebrados antediluvianos pleistocênicos.

Não são eles, portanto, tão extensos e em lençois tão espessos, como nas formações eocênicas costeiras de Maria Farinha e Itamaracá.

Nas baixadas úmidas (brejos) do vale do rio Mundaú e seus afluentes existem extensos e espessos níveis de 'massapê', compactos e férteis, que estão sendo explorados, recentemente, para o fabrico de tijolos prensados e vasados, bem com têlhas planas do tipo Marselha.

Numa grota da Serra Branca, onde existe a fonte de água mineral, há um depósito de turfa recente, com um metro de espessura e provável idade de três mil anos,  capeado por um lençol de areia grossa.

O horizonte  subjacente de gnaisse algonquiano da Serra dos Garanhuns é cortado profundamente por um espesso dique de pegmatito, no qual ocorrem minerais como a ambligonita e o espodumênio, que possuem o lítio, encontrado em dosagem elevada digna de nota (sete miligramas por litro), conforme a análise de Paul Richer, Diretor do Laboratório de Produção Mineral do Ministério da Agricultura, na água mineral natural litinada da Serra Branca.

Por outro lado, no referido gnaisse ocorre a anfibolita que  forma como nos calcáreos, veios ou galerias subterrâneas, que contêm os manaciais telúricos que dão origem à importante fonte de água oligo-mineral, localizada num estreito córrego da Serra Branca, bem defronte da Gruta D'Água, a um quilômetro, em linha reta, de Garanhuns, possuindo uma situação privilegiada, por ser encontrar isolada, numa altitude de 827 metros sôbre o  nivel médio do mar, no fundo de uma bacia hidrográfica de  regular extensão, com as encostas muito escarpadas e cobertas de vegetação, estando o cimo da serra a 900 metros de altura, dominando a cidade que tem uma altitude média de 825 metros.

Garanhuns possui cotas elevadas como a dos trilhos na plataforma da Estação de Rêde Ferroviária do Nordeste, com 869,30 metros; a Serra Branca, na Estância Hidro-Mineral, com 900 metros; o Monte Columinho, no Cruzeiro, com 940 metros e o Monte Magano, na pedra fundamental do Mirante, com 1.025 metros.

A topografia da Cordilheira dos Garanhuns, composta das serras dos Garanhuns, propriamente dita, dos Fojos, dos Bois do Tará, do Brejão, da Serra Branca, dos montes Sinai, Columinho, do Miguel ou Boa Vista e do Magano, é muito ondulada, ostentando algumas planuras (altiplanos) cercados de encostas ora suaves, ora escarpados.

Sandoval Carneiro de Almeida afirmou que esta topografia está gravada nos remanescentes das formações cretáceas que cobriam, primitivamente, o planalto da Borborema.

Na bacia da fonte Serra Branca, há uma encosta muito íngreme, quase a pique, onde se pode observar um extenso leito de caolim puríssimo, incluso nas argilas de côres variegadas que procedem da Gruta D'Água.

No fundo do vale (thaiweg), onde ocorre a fonte, existe um lençol de turfa assentado num nível de areia quartzosa que repousa sôbre um estrato de quartzito branco recristalizado, muito fendilhado.

A surgência da água ai é notável, justamente nos fendilhamentos do quartzito, dando uma vasão de quase dois litros por segundo, com uma pressão de 72 milímetros. A temperatura da água é normal, no verão e no inverno.

O futuro de Garanhuns está, pois, assegurado como cidade estância hidro-mineral.

O seu clima ameno (média máxima de 23º C e média mínima de 19º C, dando uma temperatura média secular de 21º C, com uma variação máxima de 4º) confere-lhe um lugar de destaque entre as cidades de planalto brasileiras, como: Campos do Jordão, em São Paulo; Araxá, Barbacena e Caxambú em Minas Gerais; Nova Friburgo, Petrópolis e Teresópolis, no Estado do Rio.

As suas águas minerais são múltiplas e variadas, tal como: a litinada da Serra Branca, as magnesianas da 'Vila Maria' do 'Pau Amarelo', da Serra dos Fojos, a litinada da Serra do Brejão da Fazenda 'Brasileiro' as de mesa do Cajueiro, da 'Vila Regina', a do 'Árabe' e a do Sanatório 'Tavares Correia' tôdas elas situadas nos arredores da cidade, estão fadadas, pela sua potabilidade e importância medicinal, a darem à terra de Simôa Gomes o lugar de destaque a que faz jus, pelo esplendor do clima e riqueza mineral do seu solo.

São águas provenientes de fontes localizadas em bacias hidrográficas bem dispostas, nos sopés de encostas escarpadas de barreiras cretáceas, como a primeira e a segunda fontes. Na Serra Branca, a terceira, no Monte Columinho, a quarta, na Serra dos Garanhuns, propriamente dita.

A surgência de quase tôdas é notável nas fendas dos estratos de quartizo, nascendo algumas das encostas das barreiras de argila esmética e caolim, com descarga de dois litros por segundo e pressão variável em tôrno dos 70 milímetros.

A vasão dos poços d'água de mesa do Cajueiro, do Árabe e do Sanatório 'Tavares Correia' é de 900 litros horários ou um quarto de litro por segundo.

Essas águas, com uma temperatura normal ambiente  e uma limpidez que as tornam muito apreciadas como excelentes águas potáveis, principalmente por estarem isentas de bacillus da ordem coli-tífica, já estão sendo exploradas comercialmente, na cidade.

Urge o seu perfeito beneficiamento e engarrafamento higiênico para uma maior e mais eficiente distribuição no Estado e no Pais.

Fonte da Pesquisa: Livro 'A Terra dos Garanhuns' do professor e escritor João de Deus de Oliveira Dias - Garanhuns ano de 1954. Foi mantida a grafia da época.

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