Garanhuns

segunda-feira, 17 de julho de 2017

QUERO VOLTAR À GARANHUNS

Feira de Rapadura na década de 1950 em Garanhuns.
Créditos da foto: Massillon Falcão.

O Escritor José Américo, paraibano de quatro costados, disse certa ocasião de que "Ninguém se perde no caminho da volta". O fato de que todos têm o incontido desejo de uma volta às origens, um retorno ao passado, uma visita às lembranças memoráveis e distantes. Eu chamo à  este desejo de: "desaferrolhar os portões do tempo". Para mim é uma condição inerente ao homem, este querer volta. Mesmo não voltando no aspecto físico, volta-se com certeza em pensamentos, em lembranças, em sentimentos, sonhos e emoções. Somos como alguns animais que têm uma natureza atávica, como uma necessidade, quase imperiosa, de voltar às origens. É de natureza. Assim, como eu sou por atividade e profissão um Historiador Memorialista, quero voltar ao meu tempo de menino. Quero voltar às noites invernais de Garanhuns. Ao aconchego do meu pai e ao colo da minha mãe.

Numa volta telúrica quero correr, outra vez, na Rua do Recife, a rua da minha infância. Descer a ladeira da Vila Maria, subir o Alto do Magano, colher as pitangas e os pirins, nos sítios dos vizinhos. Quero ver a menina de trança descendo a ladeira do Colégio Santa Sofia. Quero vestir a farda cáqui de punhos vermelhos do Ginásio Diocesano. Quero ouvir a voz tonitroante da professora Nísia Caldas ensinando as primeiras letras. Quero fazer os deveres de caligrafia, descrever as composições dos quadros coloridos, levar os cascudos do Padre Adelmar (que me ensinou a ser gente, que moldou a minha personalidade e que formatou o meu caráter). Quero engraxar os meus sapatos para o desfile, no dia 12 de outubro e quero também desfilar garbosamente naquele dia 12, cantando: "Alto Padrão de Civismo e de Glória".

Quero ver "Meu Lôro", o porteiro-servente do Ginásio. Quero brincar puxando carrinho-de-rua, jogar "bola-de-gude", empinar papagaio, rodar pneus velhos, esticar "badoque" para os passarinhos e pela manhã, cedinho, antes mesmo do sol nascer por traz da colina verdejante, tomar o leite fresco na vacaria do quintal do vizinho. Quero ver meus amigos de então: Edelson Dourado, Ângelo Gouveia, Salomão (Saló, neto de Seu Berlamino, o barbeiro e filho da Dona Duda, a costureira); Quero ver Flávio Matos, Celso Matos, filhos do grande Educador e Dentista Mário Matos. Quero ver Maurílio Matos, Acadêmico da Sadalícia Acadêmia de Letras de Garanhuns, ler seus poemas de elogios à Terra de Simôa Gomes. Quero correr para a feira, na Avenida Santo Antonio, que tinha de tudo: o "Homem da Cobra", o "Vendedor de Passarinho", o Fotógrafo "Lambe-lambe", o "Raizeiro" (vendedor de ervas medicinais). Quero comer "caramba" (bola de açucar) na Barraca de Tio Chiquinho e Tia Satu, com as filhas Chiquita e Rosarina. Comer alfinin, pão doce com caldo-de-cana. Ver o barbeiro da barraca, a "Feira do troca-troca". Quero rever minha madrinha Beatriz Braga, a melhor costureira de vestidos de noiva da cidade. Comer as sobremesas domingueiras da minha irmã Alcione (mulher de Pedro Maia), filho do Prefeito Tomaz Maia). Quero ver as lojas com seus nomes tão familiares do comércio: "A Atrativa", "Ferreira Costa", "Banco do Povo", "Café Glória" (de Arnóbio Pinto), "Sapataria Moderna", "Mercearia Lopes", "A Sultana", "Padaria Royal" (de Zé de Souza), "Farmácia Osvaldo Cruz" (do Dr. Hermano Freire), "Farmácia dos Pobres", "Casa Marlene", (de Israel Pereira Lopes), "Alfaiataria Koury" (de Jorge Koury). E na Avenida Santo Antônio, ver as figuras quase veneradas de Dona Dulcina e da Professora Elisa. Elas sentadas à calçada, na tardinha fria, vendo os passantes, Cumprimentando à todos com risos.

Quero ver os amigos do meu pai, Antonio Reinaux Duarte. Alguns deles, como: Pípe Dourado, Dedi Maia, Seu Câmara, "O Coletor" (da Coletoria), o Advogado Urbano Vitalino, Lula Branco, e os comerciantes do meu tempo de menino: Adalberto Alexandre, Duda Diletieri, os Koury, Arnóbio Pinto, Anísio Pinto, Manoel Gouveia e mais: os Vilela, os Matos, Seu Esperidião (fotógrafo), "Xixi da Música", Mané Fogueteiro, Seu Leite e a figura popular mais conhecida: o "Mudo da Estação de Trem". Mas também gostaria de rever outras figuras de outras lembranças na linha da educação e do saber: Monsenhor Callou, os Bispos: Dom Moura, Dom Mário Vilas Boas, o pequenino-grande Padre Godoy e o Padre Tarcísio da Rua da Areia e lembrando sempre o Padre Adelmar.

Ah!, mas como eu queria ver as flores de Garanhuns. As Rosas, as dálias, os crisântemos, "Carinho-de-mãe", os cravos e as belíssimas violetas dos jardins da Praça Dom Moura. Ver a moldura verdejante das Sete Colinas. Nos Domingos à tarde, às "Matinés do Cinema Glória", com os filmes de Cowboy, (Tim McCoy, Buck Jones), de Tarzan, e os seriados: "Flash Gordon", "Mandrake" e outros. Ninguém se perde no caminho de volta. Por isso quero voltar à Garanhuns, a minha querida "Enevoada Pérola Fugídia". Voltar ao aconchego de minha mãe, eu, décimo quarto filho dos vinte filhos de Antônio Reinaux Duarte. E quero mais: sentar no colo de Dona Francisquinha, minha mãe.

Marcílio Lins Reinaux.
Livro Memórias de Garanhuns "A Enevoada Pérola Fugídia".


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