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segunda-feira, 19 de março de 2018

FAMÍLIA GUEIROS - PARTE I

Francisco de Carvalho Silva Gueiros
Por David Gueiros Vieira

Inicialmente, deve-se ressaltar que o nome Gueiros, que se saiba, é único no Brasil, ainda que o mesmo exista na Galiza espanhola. Partindo deste pressuposto, aqui são formuladas hipóteses sobre sua origem, e indicando-se também outras propostas, relacionadas ao tópico.

Inicialmente, referência deve ser feita aos irmãos Francisco e Laurentino de Carvalho Silva Gueiros, casados respectivamente com Rita Francisca e Tereza Barbosa da Silva, de Águas Belas. Foi através desses dois matrimônios que o nome Gueiros foi perpetuado, em Pernambuco. Havia um terceiro irmão de sobrenome Gueiros - José Gueiros - mas este morreu solteiro e não deixou herdeiros.

Encontramos, portanto, duas vertentes, que se unem nesses dois casais: a primeira, a dos Gueiros propriamente dita, traçada a partir do casal "mochileiro", Micael de Amorim Souto e Maria Paes Cabral, do Recife e Garanhuns, incluindo-se entre suas descendências várias famílias de nome Amorim, Araújo, Barros, Borba, Cabral, Carvalho, da Silva, Dourado, Furtado, Jardim, Lira, Peixoto, Pinto, Souto, Teles, Tenório, Vaz da Costa e outros. A segunda, dos Cardosos de Águas Belas, representada pelo casal João Rodrigues Cardoso e Cosma Maria da Paixão, de Santo Antão da Mata - incluindo-se nela, entre inúmeras outras famílias, as de nome Araújo, Barbosa, Bezerra, Carvalho, Cavalcanti, da Silva, Gueiros, Ivo, Jacó, Lins de Albuquerque, Loreto, Marques, Malta, Melo, Nunes, Peixoto, Ramos, Robalinho, Rodrigues, Tenório, Vanderlei e Vasconcelos. 

Conforme já registrado, a primeira pessoa de nome Gueiros em Pernambuco, da qual se tem conhecimento, apareceu nos Campos dos Garanhuns, após 1696, quando oficiais veteranos da Guerra dos Palmares  obtiveram sesmarias na região, como prêmio por haverem participado daquela chacina.

Face à escassez de fontes históricas primárias, torna-se difícil estabelecer exatamente a origem do capitão Micael de Amorim Souto, ancestral de todas as famílias ditas "mochileiras". Presume-se ter o  mesmo vindo do Recife, pois casara com uma neta do comerciante recifense Antônio Vaz da Costa. Comerciante no Recife, Antônio Vaz pertencia àquela classe que, por zombaria, era chamada de "mascate", pela nobreza de Olinda.

Teria o capitão Micael de Amorim Souto participado da guerra contra os quilombos? Não se sabe, pois não foi encontrada, por exemplo, uma relação completa dos oficiais e suboficiais da milícia pernambucana que participaram da Guerra dos Palmares, nos livros consultados, tais como os de Charles Boxer, Edson Carneiro, Ernesto Ennes, Leonardo Dantas Silva e outros. Por ser Micael de Amorim Souto capitão de milícia e, por ter ele vindo do Recife, talvez tenha participado das ações militares conduzidas por aquela corporação militar na Guerra dos Palmares, atuando sob o comando de Bernardo Vieira de Mello. Não há, porém, comprovação dessa hipótese.

Sabe-se por certo que a maioria dos que se estabeleceram nos Campos dos Garanhuns, após 1696, eram veteranos da Guerra dos Palmares. É nesse mesmo período de tempo que o nome do capitão Micael de Amorim Souto e Maria Paes Cabral primeiro aparecem nos documentos locais. A primeira notícia foi de 1704, ou seja, apenas oito anos após a derrota do último reduto quilombola, e na época da distribuição das terras dos Campos dos Garanhuns entre os vencedores, daí a nossa mencionada hipótese.

Reza a história pernambucana que,  com a destruição da "República dos Palmares", o governo da Capitania de Pernambuco instalara na região dos Campos dos Garanhuns um distrito judiciário, sob a forma de julgado, com a denominação de Capitania do Ararobá, cobrindo toda aquela região de cordilheira da Borborema. A região do Ararobá fora finalmente "liberada" dos quilombolas por Domingos Jorge Velho e parte dela fora depois "pacificada" por Bernardo Vieira de Mello, tendo este exterminado a maioria dos índios tapuias lá ainda existentes (Galvão, 1933). Foi também criada no mesmo local uma freguesia, denominada Freguesia de Santo Antônio do Ararobá (Cavalcanti, 1962).

Toda essa terra, de aproximadamente 30.000 quilômetros quadrados, assim nos informa Cavalcanti, a princípio pertenceram a João Fernandes Vieira, governador da Capitania de Pernambuco, das quais este se apossara indevidamente, sem o consentimento do rei. Tal latifúndio fora eventualmente desmembrado em parcelas menores, e vendidas ou outorgadas a várias pessoas, sendo os novos donos obrigados a desenvolverem-nas de acordo com os termos e exigências legais da criação das sesmarias.

Ocorre que com o estabelecimento de quilombos na região dos Campos de Garanhuns, as propriedades em toda a vizinhança tinham sido invadidas, assaltadas, e destruídas. Assim, após aquela guerra, restava na região apenas uma propriedade, que Alfredo Leite Cavalcanti acreditava ter pertencido ao latifundiário baiano Francisco Garcia Dias d'Ávila. De tão destruída, essa propriedade veio a  ser conhecida como "a Tapera do Garcia". Cavalcanti estava provavelmente correto, visto hoje sabermos terem sido os Dias d'Ávila também donos de terras na região dos Campos dos Garanhuns, estendendo-se suas propriedades muito além da margem do rio São Francisco. No entanto, cumpre registrar terem outros autores alegado ser a mencionada "tapera" pertencente a alguém chamado Antônio Garcia, daí sua denominação de "Tapera do Garcia".

Um dos quilombos da região estava localizado em uma espécie de serrote, dominando toda a área da cidade de Garanhuns, logo abaixo do chamado Pico do Magano. Essa é uma área à qual a  memória popular deu o nome de "Quilombo". A mesma fica imediatamente atrás da Igreja de Santa Terezinha, localizada na Rua Sátiro Ivo. Esse serrote segue em direção leste-oeste até o Pico do Magano, ponto mais elevado da cidade. Parte do mencionado serrote, mais  tarde pertencente a Joaquim Ferreira de Noronha Branco, casado com Josefina de Carvalho Silva Gueiros, é hoje um aprazível bairro da cidade de Garanhuns.

Como já observado, com  a destruição do reduto africano, e em pagamento dos serviços prestados ao rei durante aquela campanha, vários oficiais de Jorge Velho, liderados pelo próprio bandeirante, solicitaram sesmarias na região, sendo muitos deles agraciados com glebas que variavam de duas a 50 léguas quadradas. Sem dúvida esta fora uma espécie de "reforma agrária", feita em benefício de grandes senhores, quebrando gigantescos latifúndios em outros de  tamanho mais razoável, mas que ainda respeitáveis latifúndios (Cavalcanti, 1968).

Inicialmente, houve quatro grandes sesmarias nessa região: a de Nicolau de Aranha Pacheco; de Cristóvão Burgos de Contreras; do tenente-coronel Jerônimo Burgos e Eça; e de Bernardo Vieira de Mello. As três primeiras estavam dentro do que  mais tarde seria o município original de Garanhuns. A terceira, de Bernardo Vieira de Mello, cobria o que veio a ser o município de Buíque (Ibidem).

Entre essas terras desmembradas e divididas entre os oficiais vitoriosos da Guerra dos Palmares, estava o já mencionado latifúndio de Jerônimo Burgos e Eça, outorgado em 1562 por Duarte Coelho de Albuquerque. Essa gleba, cobrindo todas as terras em direção norte, a partir da Serra da Barriga, último reduto dos quilombolas, estendia-se até, e incluía parte dos Campos dos Garanhuns. Parcela dessa propriedade, exatamente a área hoje ocupada pela cidade de Garanhuns, foi então doada ao "cabo" (comandante) Manoel Coelho Gomes, filho de Domingos Jorge Velho (Cavalcanti, 1962).

Enquanto Domingos Jorge Velho e seu grupo estavam aquartelados no  Brejo das Flores, parte baixa da cidade de Garanhuns, e antes de participar do assalto ao outeiro da Serra da Barriga, Manoel Coelho Gomes unira-se a uma índia unhaun, de nome ignorado. Dessa união nasceu, em 1693, uma filha, batizada com o nome de Simôa Gomes. Essa veio a casar-se com o tenente-coronel Manoel Ferreira de Azevedo, a quem deu dois filhos: Valério Ferreira de Azevedo e Bertoleza Ferreira.

Simôa Gomes, sertaneja semi-índia e indômita, amansava potros e os cavalgava à maneira dos homens. Analfabeta, no entanto marcou era com sua inteligência, bravura e despacho. Administrou às terras da família com grande sucesso, após a morte do marido,  chegando a amealhar uma "fortuna", para os padrões sertanejos, dando-se eventualmente ao luxo de doar terras à Igreja, e fazer outras caridades desse tipo. Foi ela quem doou as terras para a construção da capela de Santo Antônio, localizada em uma área, eventualmente transformada no núcleo do povoado de Garanhuns.

Simôa viveu até 1763. Hoje ela é poeticamente denominada "a mãe de todos os garanhuenses". A cidade, por sua vez, é conhecida como "a terra de Simôa Gomes" (Cavalcanti, 1968). Simôa foi, portanto, contemporânea de Micael de Amorim Souto - fundador do clã "mochileiro" - tendo este nascido em data desconhecida, e falecido em 1744, de acordo com documentos cartorários disponíveis. Alfredo Leite Cavalcanti conhecedor dos registros originais de Garanhuns, não indicou com que idade morreu Micael de Amorim Souto, não se  podendo calcular nem mesmo aproximadamente a data de seu nascimento. Sabe-se apenas, conforme já registrado, que em 1704 já era casado, tendo seu nome aparecido em documento daquele ano (Cavalcanti, 1962).

Aos acima mencionados descendentes de Domingos Jorge Velho, uniram-se, em vários matrimônios, os descendentes da Manuel da Cruz Vilela, genro do latifundiário Jerônimo Burgos de Souza e Eça e, mais ainda, alguns dos descendentes do capitão Micael de Amorim Souto e sua mulher Maria Paes Cabral, fundadores do clã "mochileiro", entre os quais encontra-se a família Gueiros, objeto especificado deste trabalho. Formou-se então uma endogamia, através do entrelaçamento de todas as famílias latifundiárias locais.

Como exemplo dessas uniões, Clarindo de Carvalho Silva Gueiros, da quinta geração de Micael de Amorim Souto, casou-se com Tereza de Azevedo, da sétima geração de Domingos Jorge Velho. De sua descendência encontram-se, entre outros, o médico Dr. Humberto Gueiros, que contribuiu com informações preciosas para este estudo.

Segue a descendência de Micael de Amorim Souto, até a terceira geração, baseada na genealogia traçado por Cavalcanti. Observe-se como cada filho recebeu um sobrenome diferente do outro:



Observa-se, pela listagem, que dos dez filhos de Manoel da Silva Gueiros e Joana Bernarda da Rocha Bezerril, apenas dois receberam o sobrenome Gueiros, incluindo uma moça, Mariana da Silva Gueiros, que morreu solteira. Que se saiba, todos esses filhos já nasceram na região de Buíque, na propriedade chamada "Barra do Onça", pertencente a Manoel da Silva Gueiros. Essa propriedade, afirma Cavalcanti, fora comprada aos herdeiros de Bernardo Vieira de Mello, aquele mesmo que em 10 de  novembro de 1710, sentindo-se ultrajado pelo poderio dos "mascates" do Recife, tentara proclamar uma república independente, no Senado de Olinda. Seguindo ainda a mesma genealogia, traçada por Cavalcanti, os dez filhos de Manoel da Silva Gueiros e Joana da Rocha Bezerril - quase todos eles com sobrenomes diferentes uns dos outros foram: 



Obs. "As descendências de Laurentino Gueiros e de outros irmãos não aparecem, simplesmente porque não tenho informações sobre as mesmas. Espero que, no futuro, alguém assuma essa tarefa, e dê continuidade a esse trabalho, preenchendo as lacunas do mesmo - David Gueiros Vieira".

Fonte da Pesquisa: Livro Trajetória de uma Família "A História da Família Gueiros" de David Gueiros Vieira, de Saudosa Memória - Editora Nossa Livraria - Primeira Edição - Julho de 2008.


Um comentário:

  1. Meu pai Eriberto Rodrigues Gueiros, nasceu em Garanhus na decada de 1920, segundo relato de meus tios e primos , eles fazem parte dos Gueiros originais. Sua irmã Naiude Gueiros e prima Aretusa Gueiros( Aretusa foi diretora do Colégio XV em Garanhus). Todos se orgulhavam de pertencer à Família Gueiros.

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