terça-feira, 22 de maio de 2018

GARANHUNS ANTIGA: COLCHA DE RETALHOS (PARTE II)

Avenida Santo Antônio década de 50 - Garanhuns

Por Nelson Paes  (1976)

O jogo de futebol no campeonato do Sport onde é hoje e a estação rodoviária. / Os jogadores usavam uma touca de meia ou de tecido colorido. / Véspera de São João. Fogos iluminando e enfeitando o espaço. / Fogueiras em todas as ruas. Seu Manoel, descalço, pisando nas brasas. / Os folhetos de feira enchendo de sonhos a nossa imaginação: O Pavão Misterioso - O Capitão do Navio - A Moça que Virou Cachorra - e tantos outros de João Martins de Ataíde, o poeta do povo. Ainda hoje, são cantados e recitados. Receberam roupa nova; até o nome mudou para literatura de cordel, porque são pendurados em cordões quando expostos à venda. Já estão no teatro e na música popular; mas, para o povo, continuam sendo os folhetos de feira. / A saída e a chegada dos trens, o de  passageiros e o de carga. Meu Deus, até quando, Garanhuns continuará sendo a terra do "já teve?" / O armazém de Alfredo Monteiro na Praça Jardim, era uma espécie de "quartel-general" dos aliados, durante a Segunda Grande Guerra. Ali, se sentia os bombardeios de Londres, como se fosse um inglês, ali, o grito de alegria no DIA D, quando houve o desembarque na Normandia. / A tranquilidade de  uma sexta-feira da Paixão. O silêncio e a tristeza impregnados nas próprias coisas materiais. O trem parado; os automóveis nas garagens; as pessoas dentro das casas, só saindo à tarde para acompanhar a procissão do Senhor Morto. A banda lá na frente tocando músicas cheias de sentimento. / Sábado de Aleluia - Será que o padre vai achar aleluia? Dizem que é uma mancha de sangue dentro do livro sagrado!... Etelvina dizia que se não acharem aleluia, o mundo vai se acabar. Nós acreditávamos, outros não, até que o sino tocava: Acharam, aleluia! Vamos matar o Judas! / Domingo da Ressurreição. 4 horas da madrugada. A neblina caindo sobre o andor, o cântico dos hinos religiosos, crianças vestidas de anjos; tudo aquilo nos dava a impressão de realidade, parecia que Jesus havia ressuscitado ali mesmo na Avenida Santo Antônio.
Sede do Sport Club em Garanhuns
Chico da Gansa, era um senhor, sapateiro que andava sempre vestido a rigor. Nos dias quentes ou frios era visto de terno já surrado, calça e paletó de cor escura, camisa de um branco encardido, colete e gravatinha borboleta. Um guarda-chuva ou uma bengala. Economizava algum dinheiro o ano todo, para ir ao Recife "vê o carnavá". Era o seu divertimento. / Estão tentando criar a "ZOOTECA". Cartões perfurados iguais aos da loteria esportiva, dando roupagem nova aos talões do jogo do bicho. E os velhos cambistas? Esquece-los? Não. Um talão, um lápis, lá vem ele, Seu Mané, vamos jogar no cavalo? Está bom pra hoje na federá! - Não, seu Duda, pra mim hoje dá bicho de pena, bote aí dois mil réis de galo. / FON-FON-FON-FON - a buzina dos automóveis, os FORD de bidé, coração balança, e outros que foram a sensação automobilística de uma época. / Cadeiras na calçada. Lá dentro a moça tocando piano. Ficou para sempre nos nossos ouvidos, os acordes de La Comparista. / Seu Belarmino de Mora; João Paulo e José Ferreira, guarda do telégrafo-nacional. Hoje, naquela mesa estão faltando eles. Comentavam os acontecimentos da guerra. Seu Belarmino tinha a opinião de que o perigo maior é o perigo amarelo: "João, os amarelos, os chineses, agora não, mas no futuro, o mundo vai ver, Será que Seu Belarmino estava certo? Ferreira pronunciava o nome Hitler com todas as letras. Para ele, o ditador nazista era o "HITTILER". 

O sorvete de gelo raspado na tolda de Luís. O mel, bote coco e morango... / O caldo de cana com pão doce no bar de Antônio de Domitila. / A papa de farinha do Maranhão,  no Café de Doca Medeiros. / O sarapatel acompanhado de uma "misturada", na tolda da feira. / A "misturada" para não ofender. Aquela cachaça com a garrafa cheia de ervas, destacando-se canelinha. / João Pirrichiu conduzia a tira-colo uma espingarda. Percorria todas as ruas, à procura de animais soltos. Dizia que a "orde" da prefeitura era atirar para matar; mas nunca fez uso da arma. Apareciam os donos dos porcos, cachorros, cabras e carneiros, que os recolhiam. Às vezes, alguns iam "repousar" na intendência, um curral depósito onde os donos iam retirá-los pagando uma multa. / O poeta escreveu que a árvores é  bela, mas a sombra é triste. 12 de outubro, festa do aniversário do Colégio Diocesano, o querido "Ginásio Diocesano". Dia do antigo-aluno. Missa. Almoço. Visitar o padre. Olhar as salas de aula. Andar novamente nos corredores do gigante da Praça da Bandeira, graças a Deus ainda dirigido pelo ANCHIETA DO NORDESTE, o Mons. Adelmar da Mota Valença. Depois, a volta para casa. É a sombra da árvore que se projeta sobre todos nós, entretanto não é uma sombra total; a claridade está no reflexo da instrução e da educação ali recebida. Instrução que não pode ficar separada da educação, porque são linhas paralelas. E o Ginásio sempre soube instruir e educar. / Você que também é um antigo aluno de outros colégios, tem seu dia do reencontro: Colégio 15 de Novembro, na data que lhe deu o nome; Santa Sofia; 18 de setembro. O Estadual, o Municipal, e, outros educandários também comemoram a data da sua fundação. 

No Café de Raul Monte, à Rua Santos Dumont, o primeiro aparelho de rádio. Era da marca Westinghouse. Obrigado José Diletieri, por esta informação; e você ainda dizendo que é um menino de ontem. / A primeira porta de ferro, Manoel Gouveia mandou instalar na sua livraria. / A "sopa" de seu Alfredo Leite, um ônibus com os bancos iguais aos de um bonde. Os passageiros que não estavam sentados viajavam em pé, no para-lama, segurando nos "balaústres". Fazia a linha do Arraial. Tinha o pomposo nome de "Empresa de Transporte Urbano de Passageiros". / Lourenço, o jornal já chegou - Eu quero um DIÁRIO. - "Chegou, mais num tem quem vá buscá lá na estação do trem". O bom homem, o gazeteiro Lourenço, estava ainda "alto", curtindo a ressaca da noite do sábado. / Nas farmácias, a distribuição dos almanaques. João Manoel vinha do sítio no dia da feira. Entrava na farmácia de Zé Lima, e queria um, mas, só se fosse do "doutor aiér". / 1965. O último trem. Depois de setenta anos indo e vindo, o cavalo de ferro foi embora. Onde estão as lideranças do município? O trem deve e pode voltar. Aproveitem a crise do petróleo. Vamos apitem, que o trem voltará a apitar outra vez. / Jorge Koury e Antônio Moraes, os melhores alfaiates da cidade, disputavam a preferência dos elegantes. O serviço de alto falante anunciava: A roupa faz o homem, e Moraes faz a roupa. / Porque não tem mais a missa da madrugada? Falta de fé e espírito religioso do povo? Como diz um apresentador de TV, eu acho que não! / A feira de livros da Livraria Helena, todos os anos no dia 16 de outubro. Seu Félix vendia muitos livros com redução de 10 a 80%. Porque não revivem aquela tradição? / A baratinha Ford de José Mota, era toda vermelha. / O circo chegou. Eu vi o palhaço das pernas-de-pau, lá na Rua 15, acompanhado dos meninos pobres, todos carimbados nas mãos. Era o "ingresso" para entrarem de graça no circo. De graça? Eles caminharam quase todas as ruas atrás do perna-de-pau, cantado: "Ou raio ou sol, suspende a lua! Olha o palhaço que está na rua! - "Hoje tem  espetáculo? - Tem sim senhô - às 8 horas da noite? Tem sim sinhô!"... / A primeira lâmpada fluorescente, lá na vitrine da Loja Atractiva. / As "peladas" na Praça Jardim. Lá, nasceram para o futebol, muitos "craques". / Júlia, apaixonada pelo cabo do bigodão. Ele não correspondia. Pediu transferência nunca mais voltou.
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