domingo, 15 de julho de 2018

A FAMÍLIA GUEIROS - PARTE VIII

Capitão Francisco Souto de Carvalho Furtado
 "Chico Furtado"
Por David Gueiros Vieira

A família Gueiros, por muitos anos foi atuante no Partido Liberal - haja vista a mencionada "batalha de Águas Belas", ocorrida em dezembro de 1860 - tornou-se republicana. Essa mudança provavelmente ocorreu após 1888, quando perdeu seus escravos, com a promulgação da Lei Áurea. Não apenas os Gueiros tornaram-se republicanos. Aparentemente todo o clã mochileiro de cafeicultores, dependentes da mão-de-obra escrava, adotara também o republicanismo. E foram ferrenhos na política.

O pastor Antônio de Carvalho Silva Gueiros, relembrando a proclamação da República, contava ter chegado a Garanhuns notícia de haver uma reação monarquista em andamento, pois tropas fieis ao  Imperador estavam sendo enviadas pelo trem para controlar o interior. Francisco Gueiros, o pai, juntamente com todos os filhos - inclusive o narrador daquele evento, naquela ocasião com 17 anos de idade - acompanhados de vários outros parentes e correligionários, foram armados à estação ferroviária para defender a República. Os soldados chegaram, mas eram republicanos, enviados para impor o novo regime.

Mais ainda, logo após a proclamação da República, um chefe político local, chamado "Dr. Abreu" - provavelmente o Dr. Antônio Salustiano de Abreu Rego, presidente da Câmara de Vereadores de Garanhuns e chefe republicano da região - convidou o capitão Francisco "Chico" Souto de Carvalho Furtado, primo de Francisco de Carvalho Silva Gueiros, para ser prefeito de Garanhuns. O capitão "Chico" Furtado, dono de terras de café na fazenda Freixeiras, em Brejão de Santa Cruz, distinguira-se como comissário de polícia daquela vila, especialmente no extermínio do bando do então famoso cangaceiro "Cabo Preto". Homem destemido, e de punho pesado, capitão "Chico" Furtado era o tipo do político que os donos do poder republicano queriam na prefeitura, para melhor impor o republicanismo na cidade.

Filho de Manoel de Carvalho Furtado e Fausta Maria da Silva Souto, "Chico" Furtado, tendo perdido o pai quando ainda criança, fora criado pelo tio, Antônio da Silva Souto. Este era irmão de Fausta Maria da Silva Souto, portanto neto de Manoel da Silva Gueiros, e como tal primo-irmão de Francisco de Carvalho Silva Gueiros.

"Chico" Furtado obtivera sua patente da Guarda Nacional aos 18 anos de idade, tornando-se assim oficial da 38º Brigada de Infantaria de Garanhuns. Por ocasião da proclamação da República, ele tinha cerca de 30 anos de idade. Cumprindo, no entanto, seu dever filial, comunicou o convite dos republicanos ao tio e patriarca da família, Antônio da Silva Souto, recebendo do mesmo a intimação para imediatamente renunciar a prefeitura em seu favor, "pois esse lugar é meu", afirmara-lhe o patriarca. Em tempos de grande respeito aos mais velhos, o capitão "Chico" Furtado, apesar de sua idade madura, obedeceu ao tio e pai de criação, renunciando a prefeitura que lhe fora oferecida. Esse foi um momento de fraqueza, lamentado  por ele o resto da vida, como confessava aos filhos e netos.

Dessa maneira, o primeiro prefeito republicano eleito em Garanhuns, naquelas eleições a "bico de pena", nas quais se elegiam todos os que os chefes políticos indicavam, foi Antônio da Silva Souto. Tal eleição, no entanto, não fora facilmente conseguida, pois houve reação do eleitorado, cuja preferência para a prefeitura fora o pároco local, de há muito atuante na política. Assim, nos dois primeiros sufrágios para prefeito municipal, fora na realidade eleito o padre Pedro Pacífico de Barros Bezerra. Tais sufrágios, porém, foram cancelados pelo novo governo republicano provincial. Só no terceiro escrutínio é que Antônio da Silva Souto conseguiu se eleger, sem dúvida com forte apoio do presidente da província (Cavalcanti, 1962).

O poder político em Garanhuns, nesse período inicial da Primeira República, passou dessa maneira para as mãos dos primos Soutos. Apesar de vários contratempos, de uma maneira ou de outra, esses mantiveram o poder local até a revolução de 1930, e o golpe de 1937. Uma filha do capitão "Chico" Furtado, Maria de Nazareth Duarte Furtado, mais tarde casaria com seu primo, o pastor Antônio de Carvalho Silva Gueiros, tendo a Família Furtado se tornado protestante.

Como protestantes, os Furtados eventualmente abandonaram a política, por causa da ideia, então prevalece entre os evangélicos, da obrigação do "crente afastar-se do mundo e das coisas mundanas", inclusive da política. Mais ainda, em épocas de profundo preconceito religioso, um evangélico em Garanhuns teria dificuldade em obter votos, exceto dos próprios evangélicos, que eram ainda de  número muito reduzido.

No entanto, o capitão "Chico" Furtado, e seu filho Soriano Furtado, ainda conseguiram se eleger membros do Conselho Municipal. Porém, depois da chamada "Hecatombe", uma luta violenta sem precedentes, abandonaram a política completamente. Por essa razão, os Gueiros e os Furtados limitaram-se a dar apoio aos primos e parentes Mochileiros que atuavam na política, como Antônio da Silva Souto Filho, o "Soutinho", que foi deputado estadual, deputado federal, constituinte em 1933-1934, e líder político em Garanhuns por quase 20 anos (Medeiros, 1995).

Com o advento da República, Francisco Gueiros Filho e seu irmão João da Silva Gueiros, tornaram-se autoridades policiais. Eram também políticos republicanos militantes, possuindo patentes da Guarda Nacional. O tenente Francisco Gueiros Filho, mais tarde promovido a capitão, foi nomeado comissário de polícia da cidade de  Canhotinho, e o alferes João da Silva Gueiros comissário de Quipapá. No entanto, seus interesses maiores ainda estavam localizados em Garanhuns, onde ambos mantinham residência, tendo Francisco Gueiros Filho também ocasionalmente servido como delegado de Garanhuns. Isso pode ser verificado através de ofício do mesmo ao Dr. Benjamim Aristides Ferreira Bandeira, Questor de Polícia do Estado de Pernambuco. Nesse ofício, datado de 19 de julho de 1892, Francisco Gueiros Filho informava estar assumindo a delegacia de polícia de Garanhuns, naquele dia, "na qualidade de 1º suplente" do delegado titular, José Teles Furtado - seu primo, diga-se de passagem.

Sabe-se que Francisco Gueiros Filho e João da Silva Gueiros eventualmente envolveram-se em um complô para depor o governador capitão do exército Alexandre José de Barbosa Lima, conforme relatório ao Questor de Polícia do Estado, feito pelo mesmo delegado titular de Garanhuns, José Teles Furtado. Em documento, de 15 de agosto de 1892, José Teles Furtado acusava seus parentes, o tenente Francisco Gueiros Filho, comissário de Canhotinho, e o alferes João da Silva Gueiros, comissário de Quipapá, de manter por dois dias várias reuniões  secretas com vários conspiradores, entre eles o padre Pedro Pacífico de Barros Bezerra, o "comendador Bertiga", e alguém apenas identificado como "o filho do Câmara" - "Câmara" provavelmente era o capitão Manoel Câmara, um dos conspiradores e Sátiro Ivo da Silva, comerciante, casado com Maria Clotilde Marques de Oliveira, prima de Rita Francisca da Silva Gueiros.

Mais ainda, no mesmo ofício, Francisco Gueiros era acusado de "distribuir armas da delegacia com diversos parentes seus e criminosos do grupo de Brejão e parentes do mesmo, e com quem consta, vendendo e mandado vender outras armas". E acrescentava o missivista: "Desta vez não guardaram reservas do que premeditavam e então francamente disseram que estava assentada a deposição do Exmo. Sr. Governador (Arquivo do Estado de Pernambuco/CCP, 1893).

A provável razão desse complô, contra o presidente da província José Alexandre de Barbosa Lima, fora o já mencionado fato de o padre Pedro Pacífico de Barros Bezerra ter sido por duas vezes o candidato mais sufragado para prefeito, porém tivera ambas as eleições anuladas, por ordem do referido presidente da província. Os presidentes provincianos tinham o poder e a tarefa de referendar todas as eleições. Sem dúvida, essa era uma maneira efetiva de controlar o poder municipal, mantendo a extraordinária força que os prefeitos possuíam, em mãos de amigos dos presidentes provinciais.

Tomar parte em um complô contra o governador Alexandre José Barbosa Lima era uma temeridade. Seguidor fanático do Marechal Floriano Peixoto - o "Marechal de Ferro" - capitão Barbosa Lima, tendo se desligado da tropa, deixara crescer a barba, tornara-se político e passara a respaldar seu poder não na polícia do estado, mas num grupo do populacho. Esse grupo era cognominado "Tiradentes", ou "Onda Azul" - pelas camisas azuis que seus membros vestiam. Símile aos sans-coulottes da Revolução Francesa, e ao famigerado Clube de la Mazorca, do tirano argentino Juan Manuel de Rosas, os "Tiradentes" pernambucanas detinham poder quase que absoluto, para fazer qualquer tipo de violência contra os  opositores do governo republicano. Mais tarde outra organização chamada "Onda Azul" apareceria, na revolução de 1930, que parece ter sido uma mera imitação do grupo pelo governador provincial Barbosa Lima. Não está muito claro se havia alguma ligação entre esses dois grupos.

Fonte: Livro - Trajetória de uma Família "A História da Família Gueiros" de David Gueiros Vieira - Primeira Edição Julho de 2008 - Editora Nossa Livraria
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