quinta-feira, 8 de novembro de 2018

CRÔNICA - PERDIDO NA NOITE DE DALLAS

Clovis de Barros Filho nos Estados Unidos em 1989
Por Clovis de Barros Filho*

São Paulo/SP - Maio de 1989. Aquela era a primeira vez que visitava os Estados Unidos da América. Fui com o meu chefe fazer um estágio na nossa fábrica em Brownsville, no Texas. Depois que acabamos o treinamento numa sexta feira, estávamos nós de volta ao Brasil. Porém, aproveitaríamos ainda o restante da sexta e só voltaríamos no sábado à noite. Meu chefe preferiu ir e ficar o fim de semana em Miami e eu resolvi ficar em Dallas e regressar num voo direto para São Paulo no sábado. Só que antes eu tinha que devolver o carro à locadora no aeroporto. E foi exatamente o que tentei fazer. Com um carro americano na mão, um inglês pra lá de sofrível, tendo que devolver o carro e acertar as despesas, não seria uma tarefa das mais fáceis. O pior mesmo, era como chegar ao estacionamento naquele trânsito infernal próximo ao aeroporto de  Dallas Fort Worth. Não tive escolha. Fui dirigindo devagar me orientando pelas placas até que cheguei na entrada que dava acesso ao estacionamento. Mesmo morando em São Paulo uma cidade à frente no desenvolvimento tecnológico no Brasil, não havia e se havia era ainda limitado há pouquíssimos lugares, o controle de acesso através de cartões e sensores magnéticos. E ai a coisa aconteceu. Olhei para dentro da cabine e não tinha alma viva para abrir a porteira de acesso. Claro era tudo automático, bastava tirar o cartão do local e a porteira abria automaticamente. O problema é que eu nunca vira aquele sistema antes na minha vida. Parei na porteira e literalmente fiquei sem saber qual atitude tomar, pois não havia ninguém para abrir a porteira para mim. Para meu desespero dezenas de carros começaram a parar  atrás do meu. No começo esperaram mais ou menos uns 30 segundos para em seguida começarem a buzinar e gritar comigo freneticamente.  Confesso que por pouco não acelerei o carro e derrubei a porteira tal o nível de tensão a que estava submetido. O que me salvou, foi que ao dar uma olhada para o carro que vinha logo atrás do meu, o seu motorista fez um sinal apontando para o painel e ai foi quando vi a ponta do cartão, que na ocasião funcionou como uma verdadeira boia de salvamento. Ao puxá-lo, a porteira se abriu e eu suando frio e nervoso relaxei e afinal consegui chegar ao local de entrega. 

Mais tarde já no hotel, relaxado depois de uma deliciosa ducha e um ótimo lanche, fui de taxi ao centro da cidade para curtir a noite. Acho que a distância era  de uns 20 km até o centro. Fui conversando animadamente com o motorista mexicano que passou o tempo todo falando de Pelé. Dallas não é a capital do Texas mais é muita bonita com seus prédios envidraçados no meio de um quase deserto. Coincidentemente na época, estavam filmando o seriado Dallas que ficou muito conhecido no Brasil. Chegando no centro, com o sol ainda brilhado forte, mesmo sendo umas sete da noite, tratei de tomar umas cervejas num bar com música country ao vivo. Exagerei na dose. A cerveja mexicana era boa e barata e ai passei do ponto. Quando  dei por mim estava conversando animadamente com um porteiro de um conjunto residencial sentado na calçada do prédio e o que é mais surpreendente, em  inglês. O cara também já estava pra lá de Bagdá. Todo morador que entrava ou saia desse prédio ele falava o diabo a respeito deles. Perguntei a ele onde ficava a rua Elm Street. Essa rua para quem não sabe ficou e ainda é tristemente famosa no mundo inteiro, por ser o local onde o presidente Kennedy foi assassinado. Ele me indicou o local o qual ficava a uns dois quarterões de onde estávamos. Lá fui eu para Elm Street. Lá chegando vi o depósito onde Lee Oswald atirou no presidente. Mesmo sendo tarde da noite, havia muitos turistas no local. Após alguns minutos explorando a praça me deu uma tremenda vontade de mijar, sinal que a cerveja mexicana estava fazendo efeito. Para onde ir? Não havia um bar por perto ou outro local onde pudesse tirar a água do joelho. O jeito que achei foi atrás de uma espécie de totem no meio da praça. Desconfiado, pois havia bastante gente transitando nas proximidades, comecei fazendo minhas necessidades fisiológicas. Antes de terminar o xixi, eis que um holofote me iluminou em cheio revelando o meu ato pouco civilizado, e o que era mais grave, no monumento em homenagem ao presidente Kennedy. Não sei se eles me viram. Só sei que disparei numa corrida louca pelas ruas largas e naquela hora desertas de Dallas, vendo a hora de ser preso pela polícia local. Até hoje não sei como voltei ao hotel são e salvo. O que sei é que por pouco não fui preso por fazer xixi no monumento em homenagem a JFK.

*Clovis de Barros filho nasceu na Serra da Prata (Iatecá). Estudou no Colégio Diocesano de Garanhuns do Admissão ao Científico onde concluiu em 1968. Reside em São Paulo desde 1970. É Licenciado e Bacharel em Química Industrial pela Universidade de Guarulhos e Químico Industrial Superior pelas faculdades Oswaldo Cruz/SP.
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