sábado, 3 de novembro de 2018

CRÔNICA - QUALQUER SEMELHANÇA

Igreja Matriz de Santo Antônio e o Colégio Santa Sofia
década de 40 
Por José Gomes Sobrinho*

Garanhuns/PE - Certas atitudes tomadas por algumas pessoas às vésperas e depois das eleições, lembram muito (mas muito mesmo!), uns "casos" acontecidos nessa Barbosóplis tão amada por todos nós,  presentes ou distantes. Os chiliques de políticos caprichosos, - do tipo conhecido como, "fulano de tal" -,  vingativos e apopléticos, que agem como se  fossem donos do mundo, ou melhor, donos da bola, tal qual o caso do garoto da "Baixinha", antiga Travessa da Boa Vista hoje, se não me engano, Rua Dr. Dourado.

A Baixinha, sem calçamento, era um pedaço da rua coberta por uma generosa camada de areia, trazida pelas chuvas à época, abundantes e regulares - usada pela meninada para jogar futebol. A bola, nada mais era do que  as bexigas de porco, resgatadas dos matadouros de porcos de seu João Machado e de seu Antônio Leite. O jogo acontecia todos os sábados, à tardinha e era um momento de congraçamento dos "moleques" que, ali moravam, que "tiravam o time", escolhendo os  jogadores de cada lado.

Um belo dia, mudou-se para aquela rua uma família de Brejão (ou de Bom Conselho, não sei ao certo). Dela fazia parte um menino cuja idade estava na média da dos residentes. O recém chegado ficava olhando, com os olhos compridíssimos, a turma jogando, aplicando belos chutes às bexigas de porco que, frequentemente, estouravam, interrompendo a  "peleja", frustrando os ânimos dos jogadores. Um dia - lembro-me como se fosse hoje -, o novato apareceu com uma bola de futebol, tipo oficial, novinha em folha, vermelha, e ofereceu-a aos chefes dos times, desde que pudesse jogar também. Aceito por um dos lados, mostrou-se absolutamente inútil no trato com a bola; experimentado no time adversário, teve o  mesmo resultado desastroso, com o que as  "esquadras", frustadas com a decepcionante consenso, retirá-lo de campo. Aí, sem  mais  delongas, o novato fez beicinho, pegou a pelota, limpou-a e, de cabeça empinada, retirou-se do  campo, deixando a turma perplexa e  desiludida... Pouco tempo depois, a família se mudou da rua, mas o moleque ficou conhecido como "o dono da bola".

Qualquer semelhança com alguns acontecimentos recentes, devidamente noticiados em jornais de grandes cidades, não será mera coincidência. Acontece que o campo, agora, não é mais a antiga travessa da Boa Vista e os meninos que estão em jogo não são mais meninos de classe média ou baixa; são cidadãos conscientes, bem informados, embora um tanto apáticos e resistentes ao necessário exercício da cidadania, visto deixarem-se levar por alguns portadores de  "novas bolas de futebol" que, mal atendidos, não hesitam em deixar o campo. Aliás, não "pegam a pelota" e saem; infelizmente, fazem pior do que o menino da Baixinha; expulsam o(s) jogador(es) local(is), e saem sem maiores  considerações.

Para tristeza dos demais jogadores e da assistência, não há muito de ficção nesta fábula, mas não é difícil tirar algumas ilações dolorosas. Em verdade, Garanhuns precisava se amar um pouco mais. Ou melhor, MUITO mais: lembrar-se de suas belas tradições de civismo e de um tempo em que seus valores eram respeitados, pelos locais e pelos forasteiros. Tem-se a impressão de que quem que venha, de onde vier, sinta-se "dono da bola" e possa tripudiar sobre aqueles pessoas cujas raízes familiares brotaram deste solo há algumas centenas de anos. E, pela pertinácia de seus antepassados, pensam uma cidade mais justa e mais humana.

Pelo simples fato de me recusar a romper os liames com esta terra, exerço o direito de me sentir indignado com algumas notícias vindas daí. E como não quero desacreditar no  que dizem as notícias dos jornais, lavro aqui, como diria minha santa avozinha, um veemente apelo para que a terra de Mário Matos, Álvaro Rocha, Jaime Luna, Raimundo de Morais, Minervino Apolinário, Fausto Souto Maior e milhares de cidadãos conscientes de seus lugares na sociedade, mire-se no passado, para redimir-se de sua omissão nos tempos presente.

Como diria o saudoso mestre Francisco dos Guimarães Fernandes, de saudosa memória, "o barrete vai para a cabeça de quem dele sentir necessidade", ou algo assim... (Ano 2002).

*José Gomes Sobrinho (Garanhuns, 1935 — 2004) também conhecido como Zé Gomes, foi um poeta, músico e escritor brasileiro, membro das Academias Palmense e Tocantinense de Letras. Foi também presidente do Fórum Nacional de Conselheiros Estaduais de Cultura.

Em julho de 2010, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, sancionou uma lei que leva o seu nome, e possibilita o ensino da arte e cultura regional na educação básica.
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