terça-feira, 6 de novembro de 2018

CRÔNICA - UM PASSEIO SENTIMENTAL

Década de 20 - Antiga Praça Sérgio Loreto atual Praça
João Pessoa - Garanhuns
Por José Gomes Sobrinho*

Garanhuns/PE - Eis-me aqui, dedos trânsitos pelo frio europeu de minha cidade natal, com o coração dividido: já não sei se sou o menino de Garanhuns, pensando um mundo ilimitado, sem fronteiras, bem além das colinas, ou o operário de Palmas, vendo a cidade crescer, ou melhor, ajudando a cidade a crescer a ficar bonita, tornando-se, sem favor, a mais linda capital brasileira.

Vou caminhando pelas ruas, encontrando amigos e colegas da distante infância, olhando-lhes os rostos, tentando recompor a figura de quarenta ou cinquenta anos atrás, recusando-me a registrar a ação do tempo sobre nós.

Mudou a cidade onde nasci: suas ladeiras, outrora tão bonitas (as subidas e descidas realizadas com a lepidez da infância-juventude), hoje me parecem mais íngremes mais compridas; o que respiro é o mesmo ar puro de sempre, mas penetra-me os poros, tentando enregelar estas articulações um tantinho empenadas pela ação do tempo. Mesmo assim, caminho e passeio nas ruas de minha adorada Garanhuns, aqui e ali me surpreendendo com uma pequena lembrança que me assalta, seja de uma casa, de um beco ou, até de alguma coisa vivida, alguma pessoa encontrada...

Vez por outra, um surto de tristeza e desencanto: uma sensação de impotência, ao ver a descaracterização de sua arquitetura as belas residências daqueles tempos, as fachadas de estilo elaborado substituídas por  verdadeiros caixotes desproporcionais, absolutamente desfiguradas, chocando a vista. É o que se resolveu chamar de progresso, mas que  insisto em dar o verdadeiro nome: descompromisso com a memória. A falta de ação mais definitiva por parte das "autoridades competentes", Garanhuns sacrificou alguns monumentos reais de seu patrimônio arquitetônico, deixando que fossem destemidos imóveis como as casas de Dona Sylvia Galvão, de Ruber van der Linden e de Padre Magno Godoy (a primeira, destemida "de surpresa", para a expansão de um supermercado; a segunda, simplesmente anasada, feita em escombros, e a terceira, em plena Avenida Santo Antônio, absolutamente descaracterizada, transformada em pequenas lojas de decoração de gosto duvidoso e cores assustadoras...)

Ando nas ruas de Garanhuns e meus olho de menino dão sinais de uma tristeza profunda. Onde a poesia de minha cidade se escondeu? Onde foi parar a beleza de suas ruas mais antigas? Lá está o "O Depósito" de "Seu Campos", espremido numa esquina, como se o monstrengo que substitui o belo prédio da "Livraria Escolar", de Manuel Gouveia e os outros que lhe seguiam o quisessem empurrar pra fora do lugar, onde outrora se sobressaia tão bonito. Do outro lado, a "Atractiva" ferida pela decrepitude, ainda lembra Arcelino Matos, contando suas "estórias". Mas é uma lembrança dolorida basta levantar os olhos para o que era parte superior do elegante sobrado (dele, apenas as sobras, as tristes sobras...)

Ninguém atentou para o fato de que as belas casas de minha cidade compunham, juntamente com a beleza de seus habitantes, um quadro único e inimitável o que é, hoje, uma pena... Eu ando nas ruas de Garanhuns e, especialmente na Rua Grande, não posso mais ler "O Mural", em frente ao Cine Glória; não posso mais comprar o jornal na banca de "Furinga", nem bater papo na banca de Wilson da Mota; não há mais jeito de dar uma chegadinha à Farmácia Modelo, para dois dedos de prosa com Jonas ou, ao lado, com Santinho...

Nem quero me lembrar da casa onde nasci, hoje substituída por uma sobradinho de linhas retas, frias, impessoais, sem nem um "pingo" de beleza. Não quero lembrar, mas lembro... Mas, minha cidade cresce centenária, faz-se adolescente, adulta e dinâmica; quer acompanhar o século, globalizar-se, falar de "Internet" e outras inevitáveis modernidades. Quer e consegue. Só espero que não tente modernizar as linhas da Catedral e do Colégio Diocesano; que não tente apagar os últimos resquícios de sua identidade arquitetônica, deixando de seu antigo ser, apenas o filo este sim, sendo o mesmo, só é original pela geografia: liga-nos à Europa em pleno nordeste do Brasil.

Contudo, minha cidade, eu te amo como no primeiro dos meus dias de vida; tanto como amo Palmas, onde vivo e conservo a gostosa lembrança que tenho de ti e de tua/minha gente, de tua capacidade de me manter garanhuense onde quer que eu seja. Razão porque deixo que sigas, como eu, inteiramente saudosamente livre. Ou, mais. Muito mais. (13/01/2002).

*José Gomes Sobrinho (Garanhuns, 1935 — 2004) também conhecido como Zé Gomes, foi um poeta, músico e escritor brasileiro, membro das Academias Palmense e Tocantinense de Letras. Foi também presidente do Fórum Nacional de Conselheiros Estaduais de Cultura. Em julho de 2010, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, sancionou uma lei que leva o seu nome, e possibilita o ensino da arte e cultura regional na educação básica.
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