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segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

MEU TIPO INESQUECÍVEL II

Por Clovis de Barros Filho*

São Paulo - O apelido dele era Ventania. Não deixava de ter um certo sentido aquela alcunha. Ventania cujo nome verdadeiro irei preservar era um sujeito muito branco e magérrimo o qual poderia ser levado por um forte vento sem muitos problemas. Morava na Av. José Leitão próximo à Fabrica de Vinho de Jurubeba Galvão. Era meu vizinho quando ainda morava na Boa Vista. Ventania era além de tudo um sujeito educadíssimo de boa família. Vestia-se muito bem. Calças de casemira, camisas de seda e sapatos de couro legítimo. Ventania se não me engano estudava no Colégio XV. Tinha como hobby o cinema. Mas, se você acha que era um cara que assistia filmes como outra pessoa qualquer está enganado. Ventania abusava de ir ao cinema. Não perdia um filme no Cine Glória que diferentemente do Cine Jardim exibia mais filmes de diretores famosos, os chamados filmes cabeça. Ventania pois, tinha muito bom gosto em se tratando de cinema. Havia porém, um fato que diferenciava Ventania do resto dos mortais cinéfilos. Ventania gravava na sua cabeça todos os detalhes do filme que assistia. Sabia por exemplo quem era o diretor, o produtor, o roteirista, de quem era a trilha sonora. Conhecia claro, todos os atores e não só isso, sabia tudo dos atores coadjuvantes, diretores de iluminação em suma uma loucura. Mais se não bastasse isso, Ventania nomeava algumas vítimas para contar os filmes. Eu era uma delas. Como morava perto dele bastava me ver para começar a contar o filme assistido na noite anterior e todos os detalhes da produção, uma verdadeira loucura. Mais as surpresas com Ventania não paravam por ai. Ele tinha um cacoete, uma espécie TOC que praticava quase como um ritual. Quando começava a contar o filme e seus mínimos detalhes na calçada da sua casa, Ventania se aproximava e sem o mínimo de constrangimento começava a desabotoar um por um os botões da camisa de quem estava ouvindo a sua narrativa, para logo em seguida começar a abotoá-los de novo. Ventania fazia aquilo com a maior naturalidade como se cuidasse de um filho que estava indo para escola. Só fiquei livre de Ventania quando me mudei para a Rua do Cajueiro. Perdi em definitivo o contato com ele e  o vi depois disso pouquíssimas vezes. Ventania deixou saudades era uma ótima pessoa e não se sabe lá bem o por quê agia daquela forma.

*Clovis de Barros filho nasceu na Serra da Prata (Iatecá). Estudou no Colégio Diocesano de Garanhuns do Admissão ao Científico onde concluiu em 1968. Reside em São Paulo desde 1970. É Licenciado e Bacharel em Química Industrial pela Universidade de Guarulhos e Químico Industrial Superior pelas faculdades Osvaldo Cruz/SP.

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