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sábado, 15 de junho de 2019

MEMÓRIAS DO PADRE ADELMAR VALENÇA (PARTE XIII)

Mons. Pedro Magno Godói
Garanhuns, PE - Entra 1931, cheio de desenganos e interrogações. Mas, em mim, permanecia o desejo de entrar para o Seminário. Precisava falar a algum padre. Qual? Gostava do Padre Leão, mas, como eu não poderia pagar o Seminário, ele, certamente,  me convidaria para a sua Congregação e eu não queria isso. E a nenhum outro Padre eu tinha coragem de falar. Mas, um dia, casualmente, Padre Godói me viu estudando Latim. Desconfiou, perguntou, animou. Fui chamado para dar o balanço na casa do Sr. Manuel  da Avenida, naquela mesma casa onde, na infância, eu trabalhava com o pobre Augusto Machado. Um conforto, somar as coisas do Ativo, do Passivo e, depois, mostrar o lucro, como mostrei ao Sr. Manuel da Avenida. Eram coisas que me prendiam, mas que não conseguiam desviar o meu desejo ao Seminário. 

No dia  8 de janeiro, um automóvel foi buscar-me em São Pedro, para empregar-me, no Recife, no Pátio do Terço, numa mercearia de José Rodrigues. Caiu por terra os meus sonhos. Embarquei, no dia seguinte, recebendo, porém, do Padre Godói, um cartão que, de certo modo, me confortou, embora houvesse nele uma frase dúbia. No Recife, dando o balanço na mercearia  do Capitão Pedro Rodrigues, passaria para o filho, adoeci. Julguei que chegara a minha vez. Confortado pelo carinho com que fui tratado por Pedro Rodrigues, guardo dele um reconhecimento profundo. Cinco dias depois, José Rodrigues vende a mercearia. Deus me ajudava.
Dom Manuel Antônio de Paiva - 2º Bispo
de Garanhuns: 8/12/1929 a 19/05/1937
Imagem/Diocese de Garanhuns
No dia 14, antes de voltar para Garanhuns, fui a Olinda rever, no Seminário, o lugar onde, pela última vez, tinha visto o saudoso e santo irmão Agobar. Estive lá muito tempo. Embaixo, na escadaria, fiquei olhando para cima, para o lugar onde, naquela manhã de 15 de outubro de 1928, ele estava esperando que eu descesse o último degrau, naquela hora em que olhei para trás e, vendo-o agitar a mão, não adivinhava, de modo algum, que estava vendo-o pela última vez aqui na terra... Chorei. Fui visitar, também, D. Hildebrando que, há dez anos, não via. Disse ele que, dos antigos alunos, somente era lembrado por Agobar e por mim. Mostrei-lhe o meu desejo de ir para o Seminário, mas ele achou que eu não  suportaria os estudos, porque estava muito abatido. Pedi-lhe orações. 

Voltei, em 16 de janeiro, para Garanhuns. Nova desilusão: Padre Godói tinha ido ser vigário de Barreiros. Fui, então para São Pedro. Lá, no dia 14 de fevereiro, sábado, chega um bilhete de Arlinda, avisando que Padre Godói voltara de Barreiros e tinha sido nomeado Reitor do Seminário! Também, que ele tinha falado com D. Paiva e ele queria ver-me. Fui imediatamente, na madrugada do dia seguinte. Falei com D. Paiva, logo no outro dia, segunda-feira de carnaval, 16 de fevereiro. Estava tudo arranjado. Tudo dependia de mim! Deu-me a entender que eu iria ajudar o Padre Godói. Fiquei meio entristecido, porque ele não me falou claramente que eu iria ser seminarista. Mas, depois, compreendi que, primeiro, eu deveria ser observado. 

O carnaval me fez sofrer: tanta tristeza contrastando com a alegria lá de fora! Padre Godói mandou avisar que eu já podia ir! Mandei deitar abaixo a minha cabeleira, da qual tanto  me envaidecia; o barbeiro pediu que eu não fizesse isso, mas, sem dizer o motivo, insisti. Tarcísio manda dizer que eu iria ficar na Sibéria (dormitório dos seminaristas, no 1º andar). Encerro, amanhã, uma vida e iniciarei uma outra bem  diferente! Sinto uma certa apreensão: saberei corresponder? Amanhã, passarei para a outra margem, deixando, para sempre, esta margem em que, durante tantos anos, vivi uma vida de sonhos e ilusões, de trabalhos e de dores, de erros e de graças não correspondidas! Uma vida que vivi, no dizer de Camões, "naquele engano d'alma ledo e cego! "Minha mãe, me ensinou as  primeiras letras e me ensinou, também, a rezar, ensinou-me, entre outras orações, a Salve Rainha. É impressionante a piedade com que ela reza essas orações. E é essa a oração que, nesta decisiva da minha vida, quero rezar, pedindo, porém, à Virgem Santíssima que a escute como se fosse ela que estivesse rezando: Salve, Rainha, Mãe de Misericórdia, vida doçura e esperança nossa, salve! A vós bradamos os degredados filhos de Eva! A vós suspiramos, gemendo e chorando neste vale de lágrimas! Eia, pois, advogada nossa, estes vossos olhos misericordiosos a nós volvei! E, depois deste desterro, mostrai-nos Jesus, bendito fruto do vosso ventre, ó clemente, ó piedosa, ó doce Virgem Maria! Rogai por nós, santa Mãe de Deus, para que sejamos dignos das promessas de Cristo! Amém. Fonte: O Diocesano de Garanhuns e Monsenhor Adelmar de Corpo e Alma do escritor Manoel Neto Teixeira.

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