as postagens mais acessadas da semana

sábado, 17 de agosto de 2019

CAMINHOS, QUE NÃO CAMINHO MAIS

Caminhos
Imagem/Anchieta Gueiros


GARANHUNS - Dois foram os caminhos da minha vida mais cedo. No futuro, poderão vir outros, porém, nunca mais, com a graça dos primeiros. A medida que se distanciam, os caminhos vão ficando mais bonitos. No azul ou na saudade, que não tem ladeiras. No sentimento, as lembranças se nivelam.

Um, mais antigo uns poucos centímetros de pernas mais curtas, era o caminho que me levava à casa de meus avós nos "Barreiro", que ficava perto do "Cajueiro", que ficava perto da "Sambaíba" - todos, nestes tempos de mato, cheios de árvores.

Mas, caminhos têm que ser por ladeiras, riachos e lugares diferentes, senão não têm beleza. Este caminho dos meus avós tinha duas léguas e o que não tinha, inventavam. O Pau das Almas! Cheio de  almas pelos ramos, como se fossem macacos. Uma árvore velha, frondosa, que, pertinho do cemitério, poderia ser mesmo o recanto sombrio das almas  desgostosas. Toda vez, eu olhava para cima, mas nunca consegui ver nada diferente das folhas, dos galhos... Uma vez, vi um saguim perto, noutra árvore menor. E pensei, porque estava imaginando a forma que poderiam ter as almas leves, na possibilidade de elas também terem caudas, como o macaquinho. Certamente, já tinha visto as litografias com anjos de asas, com diabos de chifres...

O caminho começava logo que se saia de casa, com uma várzea cheia de atoleiros. Passada a lama, lavavam-se os pés num riacho cheio de curvas. Em seguida, uma ladeira com ribanceiras, barro amarelo, mato grande e desabitada. No fim da ladeira, o cemitério, o "Campo Santo", de velhas catacumbas abandonadas. O muro em volta  caía, mas a frente ainda mantinha o portão, que dava uma entrada solene, respeitosa. Era comum avistarem-se ossos humanos expostos no terreno. A brancura, uma vez, me impressionou de tão branca. As almas seriam assim também? Mas, noutro canto, existia uma pequena igreja, com os "santos" pintados de cores escuras. Ou, nos rostos e nas vestes longas, largando o verniz. E, num filosofar apressado, eu via que  os "santos" estavam mais desolados do que, por exemplo, o "Pau das Almas". Mais na frente, o "Paizinho Gogó". Um homem velho, que tinha um bócio. Achava-o menos amedrontador que os ossos secos. O homem falava comigo, sorria, mas não me aproximava dele. Afinal, naquele caminho, tudo era "encantado".

O outro, o caminho da cidade. Era todo alegre. Feito, também de riachos, ladeiras e mato grande. Mas, alegre e cheio de gente  se encontrando. Eu estava maior, ia e vinha sozinho, sem medo, como se passasse de uma sala a outra de minha casa. Hoje, não existe mais a passagem pelo "Brejo das Flores" para quem vem de lá do sítio de minha infância. A certa altura da estrada, um fazendeiro fechou o caminho. Todo mundo preferiu passar pelo "Brejo das Flores" porque era mais perto e não transitavam os automóveis. Carros de boi e gente a cavalo. A maioria andava (a pé). No inverno, aqui e acolá, um lamaçal, que sempre era preciso ser contornado, entrando-se pelo mato. Nas bodegas, tomava-se cachaça e, no riachos, parava-se para lavar os pés. Era uma festa, o caminho. Nas cruzes, ao lado da passagem, indicando que ali havia morrido alguém, as mulheres se benziam e colocavam sobre o madeiro umas flores do mato. A estrada tinha um cheiro inconfundível (dela própria) que não sei explicar. Uma cor, que sei: verde do mato, verde da vida que formava um imenso corpo, do tamanho do caminho.

Estes caminhos foram, quando não totalmente, destruídos em partes. As pessoas das novas gerações não andam mais a pé e raros são os carros de boi hoje. Uma destruição!

Uma cultura que, pouco a pouco, vai acabando, a do andarilho. Uma coisa tão própria do ser humano. Andar. O correr ou andar nas pistas esportivas, para mim, não tem poesia, não tem a beleza de um caminho natural! Ar! se, pelo menos, respeitassem os caminhos, os velhos caminhos cheios de cercas, de porteiras, riachos e de ladeiras...

Cheguei a fazer duas composições musicais neste tema: O Caminho; Saudades do Carro de Boi. É quando recordo muito, cantando ao meu velho violão estas músicas, que não têm um maior significado para outras pessoas. Parece mesmo que a saudade, os seus temas, a lembrança de um passeio campestre andam sendo esquecidos. Eu, não esqueço! E, com os pés dos dois caminhos, o da casa de meus avós e o da cidade, ando pisando leve (tão macio que ninguém vê). Mas , sempre irei, sempre vou pelos caminhos, que não caminho mais...

*Por João Marques dos Santos - Escritor, poeta, editor/redator do jornal O Século, autor do Hino de Garanhuns e ex-presidente da Academia de Letras de Garanhuns - ALG.

Nenhum comentário:

Postar um comentário