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quinta-feira, 26 de março de 2020

O TEMPO E O PADRE

Luiz Souto Dourado
Era outubro e éramos moços. A viagem, por isso mesmo, estava decidida. No dia 12, os alunos do curso pré-jurídico do Colégio Oswaldo Cruz iriam visitar o Ginásio de Garanhuns, hoje Colégio Diocesano, que comemorava o seu jubileu. Viajamos de trem, Murilo Costa Rego conseguiu um passe coletivo, o que na época facilitava as embaixadas de estudantes, para ainda hoje usando "intercâmbio cultural". Fomos recebidos na Estação de São João e ficamos hospedados no próprio Ginásio. Houve festas, discursos e disputas esportivas. Além de Murilo, faziam parte do grupo, Antônio de Brito Alves, Arnaldo Lemos, Antônio Cedro Carneiro Leão, Augusto Reynaldo Alves, Augusto Novais, Bráulio Correia, Bertino Fernandes, Eurico Melânio de Barros, Tales Freitas Sadi Severien.

Quase quarenta anos, volto mais uma vez, ao Ginásio. Ao subir as suas escadas, imagino ver Horácio Siqueira retocando a imagem de São José. Encontro Padre Adelmar, de cabelos quase brancos, trabalhando como a posar, sem sentir, para uma nova imagem. Tem razão o poeta maior: "Tudo é produto do tempo e no tempo se converte".

Naquela tarde, há poucos dias apareceu no Ginásio uma senhora para falar com o Padre e assisti à conversa de ambos: o eterno problema da bolsa escolar. Senti o constrangimento do Padre e a decepção da mãe do aluno. Não sei  quem sofria mais. Talvez naquele momento uma carreira que mal se iniciava, estivesse correndo o risco de não pode prosseguir.

Lembrei ao Padre a oportunidade com o seu nome, agora criada em Brasília, para casos como aquele que acabara de assistir. Enquanto fui deputado, o Ginásio nunca deixou de receber uma subvenção destinada aos alunos mais carentes, cujos nomes jamais procurei saber.

Sei bem que a "Fundação Mons. Adelmar da Mota Valença" é por assim dizer uma violência à sua modéstia, mas espero que poderá ser, além de uma merecida homenagem, a solução para muitos casos como aquele que conhecia já de muito tempo e do  qual era agora uma testemunha.

Novamente sozinhos, pergunto por Dona Almira e o Padre diz que está dando aula. Depois lembramos a embaixada do Oswaldo Cruz e de outros fatos da vida do Ginásio. Na saída, passamos pelo corredor tão conhecido, ouvindo vozes. Não olho para nenhuma aula. Tendo medo de me encontrar. Ou melhor: medo de não me encontrar.

Há quarenta anos, o Padre nos levou à porta do Ginásio e voltou para o seu gabinete, deixamos o colégio, eu e os meus colegas de turma e seguimos os nossos caminhos. Só o Padre ficou, fazendo diariamente o mesmo caminho. Outras viagens não o seduziram. Imagino que nosso tempo já tenha feito com os seus passos talvez uma viagem de volta ao mundo. Mas o mundo que ele escolheu, que habita, ama e não trocaria por nenhum outro, foi aquele mesmo: o Ginásio.

Nós outros fizemos carreiras, seguimos vocações, cumprimos missões diferentes. O Padre, em silêncio e no silêncio do seu gabinete, sempre acompanhou a nossa vida, recebendo de vez em quando um telegrama, um cartão, uma visita.

Em 1965, quando o Ginásio completou 50 anos, o Padre já estava na sua direção há muito tempo. Dentro em breve, é o Padre quem completará 50 no Ginásio, numa cidade que  só agora vem  se tornar centenária.

É admirável a marca que certas pessoas deixam nas instituições ou que as instituições deixam em certas pessoas. O Ginásio, pode-se dizer, é o Cônego Benigno Lira e o Padre José Antero. É o Monsenhor José de Anchieta Callou e o Padre Manoel Diegues Neto. É o Padre Constantino Carneiro, para falar apenas nos seus diretores. Mas é sobretudo Padre Adelmar, como continuo a chamá-lo. Dos 65 anos de fundação do Ginásio, mais de 40, ele esteve e continua na sua direção, sem faltar um dia, sem férias, sem direito de adoecer nem de descansar. Não é portanto a simples marca de uma pessoa numa instituição. É a própria pessoa que se transformou numa instituição, sem perder as melhores e mais essenciais qualidades humanas.

Novamente, o Padre Adelmar leva-me à porta. Recordo então esse gesto, quando deixamos o Ginásio. Nesse entretempo o tempo passou. Saio e encontro um forte sol de recreio de uma aula que não pude assistir. Saí andando apressado, como o antigo menino cuja própria voz pareceu ter ouvido no antigo corredor.

Luiz Souto Dourado
Ex-prefeito de Garanhuns e deputado estadual.
31 de Maio de 1980

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