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sábado, 30 de maio de 2020

GARANHUNS ANTIGA - 'A TRISCA' NO PARQUE EUCLIDES DOURADO


No nosso tempo de criança uma das coisas mais agradáveis para a meninada, era andar de bicicleta no Parque Euclides Dourado, dito e conhecido "Parque dos Eucaliptos". Uma boa parte dos meninos e algumas meninas de famílias da classe média, esperavam ansiosos a chegada do sábado e principalmente dos domingos, para correrem ao Parque e gastarem os tostões acumulados durante a semana, em rápidas corridas de bicicletas, alugadas ali mesmo no Parque.

Em uma ampla casa de madeira, abrigada em terreno no belo Parque, sob a sombra das  frondosas árvores, o senhor José Barbosa, proprietário da "garagem", estava sempre alegre e sorridente a receber os meninos e meninas para usarem os seus biciclos. Alugava a todos, por hora. Porém lembramo-nos que uma hora de bicicleta era aluguel para menino mais abastado. Menino de posse média, contentava-se mesmo com os quinze minutos alugados, que era o mínimo que o senhor Zé Barbosa fazia. Meia hora já era difícil. Nem falamos dos meninos ricos, posto que estes tinham as suas próprias bicicletas, razão porque utilizavam o Parque e as ciclovias, mas não alugavam.


Deles eram as bicicletas mais bonitas que já vimos; como Ralleigh; de fabricação inglesa; uma outra sueca e só. Não lembramos se havia bicicleta nacional. Lembramos sim, que o velho José Barbosa, montava desmontava, raspava, pintava, soldava, enfim consertava todo tipo de bicicleta, enchia pneus, inclusive das bicicletas dos meninos ricos. Ficávamos "piruando" os meninos que alugavam para  que eles cedessem alguns minutos do seu  tempo alugado. Isso chamava-se de "trisca". "Me dá uma trisca colega"! Era a expressão sempre ouvida no parque. E assim os pobres também às vezes andavam de bicicleta. Menino rico não dava "trisca" para ninguém. Afinal ninguém podia botar as nádegas naquelas selas lindas, largas, com molas cromadas das confortáveis bicicletas  estrangeiras.

Havia também as bicicletas que o Zé Barbosa alugava, especialmente para moças. Estas eram bonitas, pois os para-lamas eram cromados, o porta-corrente também e nos lados das rodas traseiras, havia uma tela bordada de linhas coloridas, formando uma malha que evitava que as saias das meninas se emaranhassem nos raios das rodas. Afinal menina ainda não usava calças compridas. Somente saia. Também o quadro das bicicletas eram, como são ainda hoje, baixo e recurvado para facilitar o acesso e montar e desmontar o biciclo.

O senhor José Barbosa, era muito querido de uma centena de meninos. Claro, ele tratava bem a todos e resolvia os problemas de todos que chegavam com bicicletas ou que desejavam alugar. Somente não alugava fiado. Pelo menos; não nos lembramos desse detalhe. José Barbosa, viveu a vida inteira criando uma grande família do sustento da garagem de bicicletas do Parque Euclides Dourado. Ele foi  testemunha de muita "trisca". Mas assim, com o seu ofício de atender principalmente meninos, com uma prática esportiva e de lazer, criou os filhos e sustentou o lar. Seus filhos o mais velhos Jair, com os demais  irmãos homens, como Jairo, Jasiel e Jeazir, foram meninos ajudando o pai. Também consertavam e enchiam os  pneus das bicicletas dos meninos. Ainda havia as moças, filhas, como Nena (Jael), Jucy, Jésse e Jurídice, esta residente no Rio de Janeiro. Todos criados pelo aluguel das bicicletas do pai, rodando pelas ciclovias do belo parque Euclides Dourado.

Um momento telúrico e saudosista na história  bela e pungente de tantas famílias de Garanhuns. Aliás a vida e história de várias famílias de Garanhuns, merecem ser contadas e registradas em álbuns especiais.

A história de José Barbosa e sua queridíssima Garagem de Bicicleta do Parque dos Eucaliptos é um dos capítulos da história de Garanhuns, que ninguém vai esquecer. Nem os filhos do senhor José Barbosa, nem nós, filhos de Garanhuns dos bons tempos, que pedalamos naqueles dias no Parque Euclides Dourado.

Marcílio Reinaux
Escritor, poeta, desenhista e historiador
Garanhuns, 13 julho de 1993

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