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sábado, 11 de julho de 2020

HOJE É SÁBADO

Garanhuns, PE - Feira livre na Avenida Santo Antônio - Década de 1940

Hoje é sábado. Eu gosto dos sábados. Para mim, gosto que eles aconteçam sem meu planejamento. É um dos únicos  dias que para ele, não planejo nada ou quase nada. Gosto que  os sábados e as coisas boas deste dia aconteçam com o sentido de surpresa, esperando é claro, que sejam aqueles agradáveis que todos nós sempre desejamos e esperamos.

As coisas ruins que não venham... que fiquem para outros cantos.

Também não gosto muito que outros façam "planos" para os meus sábados. Lembro que na minha pré-adolescência, eu era livre para nos sábados dar uma esticada até a feira desta minha querida Garanhuns, à qual chamo em um poema/livro: "A Enevoada Pérola Fugidia". Um "mundo" maravilhoso: a feira. Gente, muita gente, frutas deliciosas, pássaros aprisionados em gaiolas, quinquilharias, pequenas figurinhas de barro com "cenas" do cotidiano, guloseimas, a "caramba", os tabuleiros de bolos e doces. Caçuás com galinhas, patos e ou pequenos animais: preá, cutia.

E mais as figuras tipicas da Feira, tais como: o barbeiro, o "homem da cobra", o cego pedindo esmola, um malabarista fazendo "mágicas" bestas, bêbados desengonçados e meu ligrar preferido: a tenda do meu Tio (avô) Chiquinho e da Tia Satu. Ali eu parava e ele me dava - invariavelmente - um níquel. Saia pulando para tomar caldo de cana com pão doce...

O sábado, o dia das  surpresas (agradáveis?), o dia da feira de Garanhuns, era para mim sempre, um dia de  alumbramento.

Manhã inteira do sábado na feira, vendo e revendo tudo.

Com o níquel dado por Tio Chiquinho, querendo comprar tudo, depois do pão doce.

E o sábado ia passando e eu correndo na feira, vendo, revendo tudo afugentando a fadiga. Quase meio dia a viagem de volta... Voltar para  casa descendo e subindo  ladeiras.

No quintal da nossa casa, outra maravilha, que ocorria somente no sábados: amigos e "parentes" comadres e compadres do Sítio Mulungu (da minha Tia Naninha) e de outros sítios próximos, literalmente "estacionavam" seus carros-de-boi, seus cavalos, mulas e burros, no nosso espaçoso quintal.

O quintal era muito grande aos meus olhos. Um estacionamento mesmo.

Eles, aqueles mesmos "visitantes" homens e mulheres,  a cada sábado, traziam dos sítios, muitos "agrados" para Dona Francisquinha (minha mãe). Traziam frutas, verduras, ou uma "franga", ou galinha gorda. Não era "pagamento" do estacionamento. Era parentesco distante, mas era fidelidade amiga que prevalecia, em troca também de favores de meu pai, comerciante.

Ali, por entre cavalos, selas, arreios, carro de boi, latas d'água, coxo de capim e muito cocô dos bichos, eu passava a tarde do meu sábado. Cenas que se repetiam a cada semana, mas sempre carregadas de emoções. Tudo se completava com as  "histórias" e "estorias" daquela gente, ali sentada em caixotes, tamboretes ou tronco de árvores. Ficavam fumando seus cigarros de palha, contando um mundo de coisas, com certeza mentiras e invenções.

Algumas verdades, claro.

As vezes acho que de certa forma "enriqueci" meus primeiros conhecimentos com aquele tipo de "cultura" rude e grosseira, mas sobremodo revestida de autenticidade e inocência.

Tirando aquele aspecto do estrume dos animais, e odor dos cigarros, o resto era beleza pura. Emoções incontidas e guardadas até hoje.

Um dia, uma égua grande acabou de urinar e permaneceu uns minutos com as pernas abertas. Fui por trás da bicha, peguei no rabo dele e tentei me balançar... Não deu certo. Ela fazendo-se de durona, (ou metida a besta) ameaçou um coice. Pulei fora em tempo.

Que bom o sábado. Melhor ainda quando ele retorna com lembranças inapagáveis. como hoje. Por isso eu gosto do dia de Sábado.

Marcílio Reinaux
Escritor, poeta e jornalista 
Abril de 2012

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