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sábado, 9 de novembro de 2019

LUÍS DAS COBRAS - TIPO POPULAR DE GARANHUNS

Garanhuns, PE - Av. Santo Antônio no início da década de 30

Luís passava o dia na casa comercial do velho Vicente do "Ponto". As vezes costumava passear pelas ruas, de preferência na Avenida Santo Antônio. "Naquele tempo não havia calçamento. A grama verde - tapete esmeraldino - servia de repasto aos animais. Sempre era encontrado conduzindo um cacete. Seu companheiro, costumava dizer que servia para espantar as cobras. Terríveis inimigas do homem, desde o começo do mundo. Foi por causa da serpente que Adão e Eva perderam o paraíso. E concluía com ares de profeta: "nenhum homem poderá viver tranquilo enquanto existir uma cobra". Luís tinha um tipo de estatura mediana, moreno claro, compleição robusta. Somente na hora do Angelus, percorria às principais ruas da cidade, não para contemplar as belezas dos nossos ocasos purpurinos, mas para espantar as cobras. Não perdia tempo estava sempre pronto a cumprir o seu destino. E com toda força batia com o cacete, na parede do chão e gritava: "Minha gente é hora das cobras... Tenha cuidado que essas cobras daqui são como os cágados - quando mordem a perna de um cristão só largam depois que o sino bate".

Tinha o hábito de chamar todo indivíduo de Pardo. Todo cidadão de qualquer posição social para ele era simplesmente "Pardo". Certa vez, passava por perto de Luís, uma dessas morenas do outro mundo, toda se requebrando, cujo "latifúndio dorsal" era verdadeiro subversão da ordem plástica... Ao contemplar o vulto da dengosa filha de Eva disse para um sujeito metido a importante que na ocasião passava: "Ou pardo vai depressa chamar aquela parda para dançar comigo uma Pavana". Não sabemos se tal indivíduo atendeu a ordem do insensato.

A verdade é que Pavana era uma dança antiga, popular na Itália, a qual mais tarde passou a dominar os salões da velha aristocrática Europa. Um dia, o nosso herói, fora surpreendido por várias pessoas, deitado com os ouvidos colados ao chão. Uma delas indagou: Luís  o que é que você está vendo ou ouvindo ai? Estou descobrindo às coisas seu "Pardo" vagabundo que não tem coragem de descobrir nada.

"O que foi que você já descobriu na vida? - Nada. Agora eu estou descobrindo coisa muito importante, é a seguinte: "É que esse mundo está todo furado"... - Por baixo da terra de formigas, e por cima de ladrões: "Só há uma coisa difícil nessa minha descoberta é a distinção que existe entre ladrão e formiga. "Cá no mundo o ladrão rouba e se esconde nos buracos das formigas". E na doutrina de vocês os ladrões roubam todo mundo e não vão para a cadeia e nem tampam os buracos das formigas". Vocês já viram que coisa. E continuava gritando são horas das cobras, São horas das cooobras...

Assim Luís terminou a sua vida afugentando as cobras de sua imaginação.

*José Francisco de Souza
Advogado, cronista e jornalista

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