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sábado, 28 de março de 2020

MONGE E ARTISTA

Garanhuns, PE - Mosteiro de São Bento - Década de 1950

Nas palavras de Dom Gerardo Martins, o Evangelho, que é fundamentalmente simples, ficava ainda mais simples. É que ele, para explicar a palavra de Deus, buscava exemplos no dia-a-dia de vida dos homens falando, parecia ter diante de si a mesma gente, os mesmos personagens bíblicos com os seus contrastes, na mesma condição e dignidade humana: dos proprietários aos mendigos, das comerciárias às prostitutas, dos profissionais liberais aos empregados. E fazia todos participantes da sua  pregação, procurando redimi-los das suas faltas.

Estamos a vê-lo com os seus paramentos  de muito bom gosto (tecidos algumas vezes por ele mesmo feito), dirigindo-se lentamente ao altar da Igreja do Rosário dos Pretos, onde viveu os últimos anos e morreu em dias recentes.

Conta-nos André Maurois que o escritor Charles Du Bois comparecia todos os domingos, em Paris, à missa cantada dos beneditinos, na Rua do Senhor, á qual se referiu com estas palavras: "Jamais vi o ofício tão belo, de uma pompa mais íntima e como que interminável em sua lenta dignidade".

Vê-se que o ofício beneditino e, de modo particular, os beneditinos, onde quer que estejam - em Paris, Rio de Janeiro, Recife, Olinda ou Garanhuns, sempre  exerceram grande influência junto a intelectuais e estudantes.

No Rio, O Mosteiro de São Bento tem atraído figuras do porte de Alceu Amoroso Lima (Tristão de Atayde), Sobral Pinto e Gustavo Corção, entre outros, convivência que ainda hoje Dom Marcos Barbosa faz questão de manter com as novas gerações. Em Olinda, fala por si mesma a comemoração neste 11 de julho da chegada dos beneditinos, há precisamente 400 anos. Imaginamos: durante todo esse imenso tempo, quantas palavras (aulas, inclusive de Direito), sons (cantos e cânticos) e silêncios (meditações) ressoaram ou foram absorvidos naqueles pátios e paredes conventuais; e ultimamente ainda ressoam as palavras de protesto e indignação de Dom Basílio Penido, pedindo justiça no caso do procurador Pedro Jorge. Em Garanhuns, Dom Gerardo Martins chegou em 1940 para  fundar o Mosteiro de São Bento.

Mentalidade inovadora, Dom Gerardo transformou a antiga casa de Dom Moura num prédio moderno para a época, encarregando Otávio Tavares da primeira parte e Hélio Feijó da fachada, Igreja e cripta, e nesta última Eros Martins Gonçalves pintou um excelente mural, hoje atração turística da cidade. Temperamento e formação artística, vindo do Rio, onde convivera com os maiores nomes da literatura e das artes plásticas; como João Cabral de Melo Neto, Cecília Meireles, Adalgiza Nery, Portinari, Vicente do Rego Monteiro, Djanira, Di Cavalcanti, Cícero Dias, entre muitos, o monge beneditino passou naturalmente a exercer nova e importante influência entre os  jovens, notadamente aqueles que gostavam de ler e pretendiam escrever. Gasparino Damata, foi um deles, que escreveu no Mosteiro os primeiros capítulos do seu livro "Queda em Ascensão".

Na própria Igreja do Rosário dos Pretos, Dom Gerardo mantinha uma Galeria de Arte, com a única preocupação de incentivar os artistas plásticos e manter com eles permanente contato. Deste modo, não foi difícil, na inauguração do Centro Cultural de Garanhuns, levar para a exposição que coordenou alguns dos nomes mais representativos da nossa pintura, como Alcides Santos, Alves Dias, Bernardo Dimenstein, Elza, Emanuel Bernardo, Francisco Brennand, Fernando Lopes, Jim, Gina Alves Dias, Guita Charifker, José Cláudio, José Tavares, João Câmara, Lula Cardoso Ayres, Maria Carmen, Milton Benjamin, Montez Magno, Pierre Chalita, Reynaldo Câmara, Tiago, Vicente do Rego Monteiro, Xtiano e Wellington Virgolino.

Ainda mais, ele,  que era membro da Associação Internacional de Críticos de Artes, escreveu no catálogo de inauguração do Centro Cultural de Garanhuns, a 27 de março de 1971, estas palavras: "Não é apenas um centro cultural como tantos  outros. É antes a Casa da Poesia. Aberta, inventiva, dinâmica, renovadora. Numa população, quase toda constituída de juventude estudantil, uma abertura para o mundo das artes, e certamente uma  semente de esperança".

E foi justamente isso - "uma semente de esperança" - que Dom Gerardo Martins fez nascer ou renascer, com palavras e gestos, como monge e artista, nesse duplo apostolado que soube exercer, onde quer que estivesse. Com simplicidade. Com elevação. Com categoria.

Luiz Souto Dourado
Ex-prefeito de Garanhuns e deputado estadual
Garanhuns, 26 de julho de 1986

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