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sábado, 30 de maio de 2020

O VARÃO JÚLIO SINÉZIO

Garanhuns, PE - Avenida Santo Antônio, década de 60
Assim como sou fiel à memória do meu pai, também faço questão de ser à dos seus amigos provados, vivos e mortos, dentre esses últimos Júlio Sinézio Souto, pai de Valdeci, avô de Bastinho, bisavô de Sérgio, Suzana e Luciana, dados à luz por Cristina, em cuja residência eu fui tão bem acolhido com um jantar nos idos de 1986.

Naquela recepção, se não me falha a lembrança, na conversação empreendida com meus anfitriões a Zé Neto, também convidado, o tema desenvolvido foi salutarmente o da família, célula mais significativa da sociedade, mesmo que alguns desavisados sociólogos teimem em considerar a entidade grupal, desde o Gênesis, como conservadora e anacrônica. Esquecendo-se que eles foram nascidos, criados e formados sob sua égide, Esquecendo-se, talvez, que nem tudo que é tradicional pode apressadamente ser considerado anacrônico e conservador.

Veio à baila a ancestralidade de Bastinho, que conheci ainda menino de cueiros, criado junto com Ricardo Luiz, filho primogênito da minha saudosa Miriam, ambos aprendendo as primeiras letras na escola em que ela foi terna professora.

A afeição do meu anfitrião pelo avô-paterno, o espírito de permanente devoção que ele fez questão de demonstrar-me por Júlio Sinézio, juntaram-se a episódios vividos na minha infância e mocidade garanhuense, onde na loja do meu pai fiquei conhecendo a figura alegre e descontraída, o bom boêmio e homem maiúsculo desde os tempos de Brejão.

A última vez que com ele estive, antes que migrasse para o reino do Senhor foi em Caetés no ano de 1982, estirado numa cama com os membros inferiores paralisados, decorrente de uma queda do seu cavalo, segundo contou-me com todos os detalhes possíveis e imagináveis. Atrofiadas as pernas, Júlio Sinézio manteve a lucidez dinâmica do cérebro de onde partia o comando da alegria e bondade com que se houve por muitos anos desde Brejão até o velho Caetano em que findou os seus dias. Fiquei sabendo da sua morte, há alguns anos, através de nota inserida na coluna de Ulisses Pinto, irmão de Socorro, Dirceu e Aloísio, ainda consanguíneos do varão que hoje perfilo e homenageio. 

Assimilo uma frase que escreveu-me dona Gerusa Malheiros, filha e biógrafa do excelso Souto Filho, sobre o parentesco espiritual dos não consanguíneos, na qual ela, bondosamente, irmanava-se comigo. Júlio Sinézio, além de amigo, sempre foi considerado por meu pai como um dos seus  familiares. Essa familiaridade dos amigos que meu pai conservou continua sendo minha, e disso muito envaideço-me.

Lembro-me bem do pedido que fez-me o bom boêmio, varão de boa cepa da  alegria esfuziante, início dos anos 80: "Rinaldo, traga-me aqui em casa, um litro de conhaque, e traga-me também Voador da Paraíba para juntos lembrar-nos em versos os conhaques que bebi com seu pai".

Referia-se Júlio Sinézio ao tempo em que ele deslocava-se de Brejão para a feira de Garanhuns, aos sábados, e com o meu pai tomava o costumeiro aperitivo, no fundo da loja, antes de rumar para o almoço que minha mãe no outro lado da rua servia em nossa residência, à sombra das duas palmeiras imperiais.

Obedeci-lhes as ordens emanadas e levei à presença do repentista Voador da paraíba, então em caetés, e com o litro de conhaque evocamos juntos os bons tempos da fraterna amizade do parentesco espiritual e irmão que ele viveu com Fausto Souto Maior. Essa a última lembrança que ficou-me do varão Júlio Sinézio, que Deus o tenha a seu lado no reino dos justos.

Rinaldo Souto Maior
Jornalista e historiador
São Paulo, 8 de Julho de 1989

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