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sexta-feira, 14 de agosto de 2020

HISTÓRIA DE GARANHUNS

Garanhuns, PE - Vista Panorâmica do "Brejo das Flores" antigo "Brejo do Coelho" - Década de 1950

Encerrada a campanha dos "quilombos", o Mestre de Campos Domingos Jorge Velho expediu três magníficos atestados dos Cabos de guerra, que com ele combateram, ao então Governador de Pernambuco Caetano de Melo de Castro, documentos esses escritos do seu próprio punho: um na data de 30 de janeiro, ainda antes do cerco final, e os outros dois a 8 e a 9 de fevereiro, logo após a batalha, descrevendo a chegada dos reforços, o notável desempenho dos seus capitães subalternos, a derrota da tropa negra do abrupto penhasco da Serra da Barriga e, por fim, a tenaz perseguição ao Zumbi foragido, que procurava escapar, embrenhando-se nas matas circunvizinhas e outeiros adjacentes.

Concluída a guerra dos Palmares, não consta dos documentos  oficiais, descobertos por Ernesto Ennes no Arquivo Histórico Colonial de Lisboa, que o grande sertanista Domingos Jorge Velho tivesse voltado aos campos dos "Unhanhú" (Garanhuns), onde demorara dez longos meses juntamente com o seu filho Cabo  Miguel Coelho Gomes.

Todavia, é bem provável que o tivesse feito, uma vez que pleiteou e recebeu mais tarde de El-Rei D. Pedro II, em doação por sesmaria, seis léguas de terra em quadro, uma das quais no planalto de Garanhuns, indo, de norte a sul, desde a "Quilombo" até o "Brejo" e de leste a oeste, do "Cedro" ao "Pau Cortado",  a qual ficou na posse do seu filho que, no breve contato com  os índios, quando da sua primeira estadia, contraíra núpcias com uma cariri (Unhanhú), e em cujo espaço de tempo, de Março a Dezembro de 1693 nasceu Simôa Gomes.

Este fato, muito comum no Brasil daquelas épocas prístinas, como país primitivo, em começo de colonização, repetiu-se com frequência, de norte a sul, mormente quando na fase de povoamento dos sertões longínquos faltaram quase por completo mulheres de raça branca, encontrando os pioneiros embrutecidos nas selvícolas perfeita correspondência ao seu desejo matrimonial.

Assim, matrimônios seródios  desta natureza ocorreram frequentemente, tanto no litoral como no sertão, como há exemplo em Piratininga (São Paulo) entre o colono João Ramalho e a guaianá Bartira, filha de Tiberiçá; na Vila Velha (Bahia), entre o náufrago Diogo Álvares, o "caramurú", e a tupinambá Moema, filha de Paraguassú; na velha Marim dos Caetés, com o nobre Jerônimo de Albuquerque e a jovem tabajara, que se chamou Maria do Espírito Santo, filha do cacique Arcoverde, etc. 

Garanhuns, PE - Casa velha de taipa onde morou Agostinho Ferreira de Azevedo - Década de 1950

A história não registro o nome da indígena cariri, (Unhanhú), mãe de Simôa Gomes, embora conste da tradição o acontecimento social, pois é evidente que o fato se realizou à luz meridiana dos trópicos "na praia do riacho Paratagi dos  campos dos Unhanhú, onde Miguel Coelho Gomes fixou a sua residência, e tomou, mais tarde, o nome patronímico de "Brejo do Coelho".

O monte, ao lado esquerdo do riacho afluente do rio Mundaú, tomou, também, o nome de Monte do Miguel, e segundo Alfredo Leite Cavalcanti, pesquisador dos arquivos de Garanhuns, o local onde nasceu Simôa Gomes deve ter ficado no sopé do  dito monte, hoje denominado Morro da "Boa Vista".

Garanhuns, PE - Viatura antiga em frente a velha casa centenária de Agostinho Ferreira de Azevedo - Década de 1950

No aprazível "Brejo do Coelho" atual "Brejo das Flores", ficou situado o primeiro curral de gado, núcleo provável daquela primeira fazenda de criação de Garanhuns, que se denominou "Garcia", em memória póstuma, talvez de Garcia d'Ávila, ou em homenagem, provavelmente a Garcia Rodrigues Pais, filho do grande bandeirante Fernão Dias Pais Leme, o qual, de 1674 a 1681, varou os sertões de Minas e da Bahia, em procura das esmeraldas descobertas pelo pai e, deixando as cabeceiras do rio das Velhas, em 1690, tomou o rumo do norte, atingindo o rio São Francisco, como fizeram antes os sertanistas Domingos Jorge  Velho e Matias Cardoso de Almeida.

Simôa Gomes evoca um misto de lenda e de história, na paisagem histórica e social da Terra dos Garanhuns. Descendente do velho tronco piratiningano de abencerragens bandeirantes, ela é neta do Mestre de Campo Domingos Jorge Velho, digno êmulo de Fernão Dias Pais Leme e Matias Cardoso de Almeida.

Herdeira, em linhagem direta, das características atávicas dos seus ancestrais: do gênio nostálgico dos íncolas e caráter aventureiro dos sertanistas preadores de índios, Simôa Gomes encarna o protótipo da mulher pioneira, aliando à coragem e à bravura as qualidades de jovem sonhadora e idealista. Unindo, paradoxalmente, à bondade do coração, a energia e a altivez. Inteligente, não obstante ser analfabeta e ignorante.

A criança brejeira, filha do Cabo Miguel Coelho Gomes, em conúbio com uma indígena cariri, "na praia deserta dos campos dos Unhanhú", transformou-se, do dia para a noite, na dama de alto porte, destemida e impávida, que cavalgava, varonilmente, fogosos corcéis (cavalos) de seu pai ou dos colonos de sua fazenda "Garcia", de pistolas nos coldres à cinta, à moda brasílica setecentista.

E e este mesmo sentimento confuso, estuante em sua alma, que a suscita, ora a dominar os selvícolas de sua própria raça, como autêntico mameluca, no começo da colonização; ora a liberar escravos, mediante alvarás, como aquele de 1726,  compulsado por Alfredo Leite Cavalcanti nos arquivos dos Cartórios de Garanhuns, sendo já viúva em plena florescência de sua  vida; ora a doar parte do seu patrimônio à Irmandade das Almas, da sua Paróquia de Santo Antônio do Ararobá, num gesto acendrado de misticismo, em 15 de Maio de 1756, na maturidade.

Nascida no fim do século VXII, em dezembro de 1693, no desabrochar de sua adolescência, era já mãe de Valério Ferreira de Azevedo e Bertoleza Ferreira, filhos legítimos do Coronel Manuel Ferreira de Azevedo, a ela unido matrimonialmente, segundo consta do inventário dos seus bens, logo após o seu falecimento, em 1726, e da escritura de doação feita pela mesma, de parte da fazenda "Garcia", em 1756.

A última notícia que se possui da pioneira é desta data, parecendo provável que não chegou a presenciar as núpcias do seu varão com Águeda Maria e, muito menos, estreitar ao colo os seus netos: Francisca, José, Antônio, Maria da Luz e Manuel Ferreira de Azevedo.

E justamente deste último, casado com sua prima legítima maria de Jesus da Silva, que procede Luiz Ferreira de Azevedo, pro-homem de Garanhuns, grande patriarca com uma prole de dezoito filhos, troncos de inúmeras famílias antigas do Município.

O primogênito Agostinho Ferreira de Azevedo, residiu na casa de taipa e telhas, ainda hoje existente na Praça Rio Branco, segundo afirma Sales Vila Nova, tendo sido um notável Tabelião do seu tempo, com relevantes serviços prestados à sua terra, conservando da antiga Comarca do Sertão do Ararobá, à qual pertencia Garanhuns, centenas de documentos de registro de terras, certidões, procurações, alvarás de libertação de escravos ou cartas  de alforria, escrituras públicas, etc., e restaurando outros importantes como aquele de 1756, que é a escritura de  doação de parte da fazenda "Garcia" à Confraria das Almas, que fez aquele que em vida foi a sua bisavô - Simôa Gomes.

Esta escritura de doação fala no "inventário e partilha (dos bens) que se tinham feito com os seus filhos", e devido à nímia gentileza do Pe. Tarcísio Falcão, professor de Geografia e História, no Ginásio de Garanhuns, e do Dr. Marinho Falcão, Promotor Público da Comarca e folclorista, que descobriram tão importante documento no Arquivo da Diocese, faço a publicação na íntegra do mesmo:

"Escritura de doação e ratificação d'ella que faz Simôa Gomes d'Azevedo, viúva que ficou do Coronel Manoel Ferreira d' Azevedo, à Confraria das Almas da Matriz de Garanhuns, desta Freguesia do Sertão do Ararobá". (Mantida a grafia da época).

Saibam quantos este publico instrumento der escriptura de doação e ratificação d'ella virem, que sendo no anno do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo de mil setecentos e cincoenta e seis annos, aos quinze dias do mez de Maio do dito anno neste Sitio da Cruz, termo do sertão do Ararobá donde eu Tabellião ao diante nomeado fui vindo, sendo ahi em caza de moradia de Simôa Gomes d'Azevedo, viuva do Coronel Manoel Ferreira d'Azevedo, apparec~eo esta perante mim, pessoa que reconheço pela propria de que se trata e dou fé, e por ella foi dito em minha presença e das testemunhas ao diante nomeados e assignadas que  ella era senhora e possuidora d'um Sitio de Terras chamado o Gracia nos campos dos Garanhuns, o qual houvera por compra o defunto seu marido o dito Manoel Ferreira d'Azevedo, e lhe tocara este de meiação no inventário e partilha que se tinham feito com seus filhos por morte do dito seu marido, de que estava de mansa e pacífica posse, no qual Sitio fazia doação à Confraria das Almas da Matriz dos Garanhuns, d'um pedaço de terras que se medirá em quadra fazendo pião na Igreja Matriz, correndo para a parte d'onde está a cruz das almas até a baixa d'onde fica a dita cruz, e o mesmo comprimento que se achar se dará para os mais lados para fazer a dita quadra, cujo pedaço de terra assim em quadra, disse ella Simôa Gomes de Azevedo, doava à Confraria das Almas da dita Matriz d'este sertão do Ararobá, e n'ella cedia a traspassava toda a posse e dominio que na dita terra tinha e podia ter d'aqui em diante para que dos rendimentos e fructos que d'ella haja e possa haver, se mandar dizer missas pelas almas do purgatório, cuja esmola lhes faz pelo amor de Deus, muito de sua livre vontade e sem constrangimento de pessoa alguma, e que ditos rendimentos das terras terão os  procuradores da Confraria das ditas almas a obrigação de arrecadarem e dispenderem nos ditos suffragios, dando de tudo conta em presença do Reverendo parocho d'esta matriz para que assim se possam utilizar as benditas almas do dito pedaço de terras doado como seu que é e fica sendo por virtude d'esta escriptura de doação e ratificação d'ella pela jé ter feito por um papel simples, o qual deroga e só quer que esta valha e lhe dê todo o cumprimento como obra pia, contra o que promete e se obriga não ir em tempo algum em juizo nem fora d'elle, e fazendo-o não quer ser ouvida por modo algum, porque se desafora de toda a restituição que a seu favor faça, porque de nada quer usar - e logo pelo Alferes Belchior Rodrigues d'Abreo como procurador da dita Confraria das Almas como substabelecido foi dito que elle a aceitava esta escriptura de doação com os encargos n'lla declarados, e que como procurados se obrigava a cumprir a guarda-la como n'ella se contem; e como assim o disseram e outorgaram, pediram e aceitaram, eu tabelião  a aceito em nome de quem toca auzente e pediram fosse feito o prezente instrumento n'esta nota em que assignaram, e pela doadora não saber ler nem escrever, assignam a seu rogo José de Barros de Abreo, presentes por testemunhas que também assignaram, João da Rocha Sá, José Gonçalves, Francisco Antunes, e eu Manoel José Pereira, tabelião o escrevi".

A rogo de Simôa Gomes d'Azevedo.
a) José de Barros de Abreo.
a) Belchior Rodrigues d'Abreo.

Fonte: A Terra dos Garanhuns / Prof. João de Deus de Oliveira Dias / Garanhuns ano de 1954. Acervo / Memorial Ulisses Viana de Barros Neto

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