sábado, 27 de fevereiro de 2021

José Wamberto: "O Internato e Revoluções do meu tempo de Colégio Diocesano"

O ex-aluno José Wamberto (foto), escritor, membro das Academias Pernambucana e Brasiliense de Letras, autor de várias obras, comenta fatos marcantes da História de Pernambuco e do Brasil, vivenciados à época em que  era interno no Diocesano.

Às páginas 74 a 76 do seu livro "O Impeachment no Estado e no Brasil", Wamberto registra episódios que marcaram sua infância e juventude, no velho Ginásio:

GARANHUNS, OUTUBRO DE 1930

"Após quatro anos de estudos, sob a direção geral do Monsenhor José de Anchieta Callou, educador a quem rendo, sempre quando tenho oportunidade, as minhas melhores homenagens, deixava eu, em 1933, o Ginásio de Garanhuns com o meu diploma da bacharel em Letras, integrando a segunda turma concluinte da história do educandário e que constava mais dos estudantes: João Guilherme de Pontes, agrônomo, falecido há anos em Maceió, Abdon de Barros Monte, desembargador em Aracaju, já falecido; Teobaldo Barros, alagoano; Israel Lira, agrônomo, também alagoano; Amaury Andrade, igualmente alagoano, cirurgião-dentista e fazendeiro, dividindo o seu tempo entre Maceió e São José da Lage; Adalberto Branco, garanhuense, e que faleceu logo depois; Ivo Leitão, promotor aposentado em Pernambuco; Pedro Callou, promotor público já falecido; Orlando Alexandre, calçadoense ilustre, Agrônomo federal; Marcos Vilela Neto, bomconselhense, que depois emigraria para o Rio; Pandiá Buarque de Amorim, bom no Inglês e melhor na Matemática, hoje residindo no Rio; Aloísio Souto Pinto, político, deputado, prefeito de Garanhuns e falecido ainda jovem; João Vasconcelos, garanhuense de quem não mais se soube o destino após ter participado das forças do Governo na Revolução de 1932; Rodrigo Pinto Tenório, filho ilustre de Brejão, um dos mais competentes técnico brasileiro em cafeicultura e alto funcionário da Secretaria de Agricultura de Pernambuco; e Alberto Campos Falcão, advogado no Recife e orador da turma. Dela faziam parte, como homenageado, Antônio Tenório de Almeida, mestre de Matemática e hoje fiscal de tributos federais; como paraninfo, o Dr. Tavares Correia, professor de  Física e diretor do Sanatório do mesmo nome e  então uma casa de saúde dedicada à clínica e à cirurgia; e como representante do corpo docente, o Dr. Eurico Lira, nosso professor de Química.

A formatura encerrava um ciclo de quatro anos de grande acontecimentos, inclusive de três revoluções, 1930, 1931 e 1932. A primeira, acompanhei passo-a-passo, pelos jornais. Depredando a minha mesada de pobre, comprava o Diário da Manhã, cujos editoriais inflamados, vibrantes e românticos de José de Sá, eu propriamente não lia, na verdade declamava para uma pequena turma de colegas mais interessados. Quando o Diário esgotava, o que acontecia com frequência, recorria ao Jornal do Recife, da mesma linha política. E cheguei a descobrir A União, da Paraíba, o órgão do Presidente João Pessoa, e que, vez por outra, chegava à cidade e era vendida a altos preços.

Na cidade, a publicação encarregada de defender o Partido Republicano de Pernambuco, portanto a candidatura de Júlio Prestes à Presidência da República, era O Jornal, a princípio, um semanário e depois um bissemanário, muito bem feito editorial e  gratificante, e dirigido pelo professor de Inglês, Hibernon Wanderley. Com oficina na Rua Santos Dumont, vizinho à usina elétrica, editava também um mensário excelentemente apresentado e com uma colaboração da melhor qualidade literária, a Revista de Garanhuns. Havia ainda dois semanários, um dos quais apolítico, o órgão da Diocese, O Monitor, já sucessor de O Sertão e de O Condor.

Chefiava Garanhuns o deputado Souto Filho, a quem os alunos foram um dia apresentados no salão nobre do Ginásio pelo Monsenhor Callou. De estatura baixa, foi fácil perceber-se a sua ágil inteligência, a grande velocidade no raciocínio e um gosto pela ironia e mordacidade. O seu cunhado Euclides Dourado era o prefeito. Bom administrador a quem o Município ficou devendo grandes obras, inclusive, salvo engano, o parque de eucaliptos que hoje tem o seu nome e que é um dos maiores atrativos da cidade.

O ano de 1930 foi todo perturbado pela agitação política. Mário Lira, o líder aliancista, não perdia oportunidade, para agitar inclusive a da morte de João Pessoa, quando houve celebração de missa com a presença numerosa de populares. Mas a nada disso comparecíamos graças à disciplina severa do Internato. Até que, no dia 3 de outubro, um sábado, cerca de oito horas da noite, entrou pela sala de estudos o Padre Agobar Valença, vice-diretor (faleceria pouco depois) e ordenou que nos retirássemos para o dormitório. E recomendava com insistência: "se ouvirem algum movimento estranho, algum tiro, metam-se debaixo da cama: nada de ir olhar na janela".

À tarde  desse dia, alguns boatos tinham circulado e chegavam ao nosso pátio de recreio, embora a cidade aparentemente estivesse calma. A escadaria  que dava acesso ao dormitório termina exatamente à porta da capela, que  ficava à esquerda. Vimos que, contritas, rezando, estavam várias senhoras que  identificamos como pessoas de família ligadas à situação política e que foram acolhidas pelo Bispo Dom Manuel de Paiva. Foi quando nos convencemos de  que algo de grave realmente acontecia. Embora naturalmente excitados, todos trataram de seguir os prudentes conselhos do Padre Agobar. Exceto um aluno, Nozinho Novais, talvez o mais insofrido dos partidários da Revolução. Filho de Arcoverde, era uma das figuras mais queridas do ginásio, pelo espírito sempre alegre, bem-humorado. Aluno do Tiro-de-Guerra, resolveu expandir os seus ardores cívicos: conservando a calça do pijama, vestiu a blusa do fardamento, pôs o quepe, sentou-se na cama e, debruçando na janela, enfrentou toda a madrugada fria, aguardando a chegada da tropa para o que desse e viesse...

No dia seguinte, porém, só havia boatos, nenhuma tropa à vista. Diante da calmaria, tivemos a nossa saída semanal para o cinema. Quando descia a Rua Treze de Maio, que liga a Quinze de Novembro à Praça João Pessoa, vi na  agência postal-telegráfica, que ficava à esquerda, o deputado Souto Filho junto a um telegrafista que manipulava um aparelho Morse, à procura de notícias. E foi a última vez que avistei o representante federal.

A essa altura, a cidade já estava dominada pelos revolucionários da terra, entre os quais a memória lembra o "Capitão" Mário Lira, o líder, o "Tenente" Sátiro Ivo, o "Tenente" Josafá, alfaiate, o "Tenente" Mário Matos, dentista, o "Tenente-Médico" Eurico Lira, que não perderam tempo e partiram para "libertar" Maceió" dos "carcomidos". Todos eles seriam posteriormente comissionados nesses mesmos postos com a chegada da coluna do Tenente Juracy Magalhães. A meninada não saia das ruas e o calendário do ginásio desorganizou-se totalmente. As tropas que avançavam para o Sul ficaram alguns dias em descanso e acamparam em grande armazém junto à estação ferroviária. A cidade, por sua vez, era uma festa descontraída, de alegria transbordante, de declamações de versos patrióticos e de cantoria de hinos cívicos, dos quais se destacava o "Hino a João Pessoa", versos de Oswaldo Santiago.

Depois veio a queda de Washington Luís, a 24 de outubro. Ninguém conteve mais os arrebatamentos e o delírio revolucionário. Formou-se uma concentração no bar-restaurante "Ítalo-brasileiro", na Praça João Pessoa, e de  cujo balcão Reinaldo Lins, jornalista-panfletário, diretor do semanário recifense A Esquerda, gritava de voz rouca os slogans da época, repetindo a cada passo: "Washington Luís caiu". Daí partiu a multidão, seguindo pela Rua do Recife, passando pela sede do Esporte e regressando até a Praça Dom Moura, em frente à estação ferroviária, com a frequente interrupção por oradores inflamados, inclusive um senhor negro que teimava em  falar em todas as paradas.

Mas a emoção maior ocorreu com a chegada de Juarez Távora. A legenda, aquele moço esguio, de fisionomia severa, fardado, de lenço vermelho ao pescoço, e no qual todos viam o seu tipo ideal de herói, de poucas palavras e de muita ação, veio acompanhado de uma comitiva dos novos grandes, inclusive o interventor federal Carlos de Lima. Fui vê-lo a aplaudi-lo com outras milhares de pessoas que se amontoavam à Rua de Santo Antônio, em frente à residência de Mário Lira. A multidão reclamou impaciente, depois de longa espera, a palavra do seu herói, mas este, relutante, mantinha-se longe das nossas vistas. Mas, afinal, veio e falou exatamente estas palavras que ouvimos com extrema atenção sagrada e que ninguém mais esqueceu" "o que tenho a dizer ao povo de Garanhuns é que a Revolução não terminou; ela vai continuar". Apenas isto, nada mais do que isto.

De fato, ele esclarecia que a Revolução armada, o movimento propriamente de tropas, terminara com a deposição de Washington Luís, mas que outra Revolução, a mais séria, a mais profunda, a modificação dos costumes políticos iria continuar. O que, sabemos hoje, ocorreu apenas em parte, como seria ele o primeiro a constatar, decepcionado, ao abandonar um posto de ministro. 

Fonte: O Diocesano de Garanhuns e Monsenhor Adelmar (de corpo e alma) / Manoel Neto Teixeira / 1994.

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