sábado, 27 de fevereiro de 2021

Um Jardim e a Cidade das Flores

Uma das demonstrações mais claras da vitória da arte sobre a  política, da estética sobre as intrigas de circunstância, por trágicas que sejam, é a história do artista e escritor Luís Inácio de Miranda Jardim (foto). Vítima silenciosa de uma hecatombe que abateu Garanhuns, em 1917, ele se mudaria um ano depois para o Recife, com dezesseis anos incompletos. De vida modesta de caixeiro até escritor e artista de renome foram só alguns passos. A sua vida é daquelas que se diziam que daria uma novela, um romance. Ou um filme - ele com certo perfil de galã de  cinema. Romance e novela, ele escreveu-os, como se fossem memória viva do menino que nunca deixou Garanhuns.

Se a vida é feita de aparentes coincidências do que de falsos acasos, a arte quis que tivesse o sobrenome de Jardim o principal autor de uma cidade que é conhecida como cidade das flores. É fato ainda a se  examinar que alguns dos maiores nomes da literatura pernambucana, ao  se radicarem em outras cidades tenham voltado sempre as suas atenções para os meninos que foram. Essa obsessão da meninice tocou Gilberto Freyre e Manuel Bandeira numa proporção não menos que a Luís Jardim. Com a diferença de que se fez notável como autor de alunos dos  melhores livros do chamado gênero infanto-juvenil.

Se a infância lembra histórias da carochinha, de trancoso e de  tanto era uma vez, lembra mais desenho, traço, os primeiros riscos que a vida insinua. Luís Jardim foi desenhista nato. Começou a reproduzir o que via quase ao mesmo tempo em que se viciou a conversar com as plantas, a perceber em tudo esse mistério intenso de que só sabem de  verdade as crianças. Se o melhor da vida é a infância, a de Luís Jardim ficou em Garanhuns, e ele a levou consigo pra onde foi ( a infância e a  cidade, que talvez sejam a mesma coisa). Num livro de memórias que  despertou o entusiasmo de Gilberto Freyre, Meu Pequeno Mundo, ele faz esta exaltação da infância em todas as páginas, não conta o que foi quando adulto, e só de leve refere-se à tragédia que alteraria o rumo da  sua vida, mas sobretudo no último trecho:

"O que há de bom em nós é herança da criança que fomos. Dificilmente a criança não é boa. É para crianças e adolescentes, em  particular, que escrevi estas lembranças esparsas de mim mesmo. Estou quase convencido de que certas situações em que me encontrei, têm semelhança com alguma porventura enfrentada por essa ou aquela criança. Outras, admito, talvez que riam de si mesmas, vendo-se pelo menos em parte retratadas em algumas das minhas doidices, necessárias e compreensíveis em crianças.

É pena. Eu mesmo sinto. Escrever o que escrevo, adiante, parece absurdo, ilógico disparate do menino atrapalhado que um dia eu fui. É pena. Aquele menino finou. À meia-noite do dia 14 de janeiro de 1917 (era domingo), aquele menino finou, com a idade de quinze anos, um mês e seis dias. A partir do dia seguinte ao daquela data, outro, um tanto postiço, contrafeito, o substituiu. Deste eu não sei, não quero, não posso contar a história, nem mesmo lembranças esparsas. Acabaram-se. Houve dois fins."

Fonte: Vida, Arte, Palavra e Perfis de Luís Jardim / Mário Hélio e Paulo Bruscky / Recife 1998.

Nenhum comentário:

Postar um comentário