terça-feira, 2 de março de 2021

Regresso ao torrão natal para politicar

Elpídio Branco (foto)*

Estávamos  em 1945. A praga de governos intervencionistas que  infestaram o Estado - hoje um, amanhã outro -  um de dois meses, outro de três - terminara. Um fato foi pior, ainda, que a praga intervencionista. É que, tendo sido Carlos de Lima Cavalcanti eleito governador, através do processo indireto (pela Câmara dos deputados), dele foi deposto, em 1937, para, no Palácio das Princesas, se empoleirar o desastrado general Azambuja, como interventor, por  força do golpe dado pelo gaúcho Getúlio Vargas. Felizmente, no posto, pouco durou. Sucedeu-o, Agamenon Magalhães que me chama a Palácio e me convida para ir chefiar a política, no município de Garanhuns.

Explicou-me que o País ia reingressar no regime constitucional, tanto assim que se processariam dentro em pouco, as eleições para os cargos executivos e legislativos, e, para ajudá-lo, nesse processamento, precisava de minha colaboração. Respondi-lhe que as feridas da revolução de 1930 haviam, realmente, sarado, mas que as cicatrizes que ela conseguiu deixar, em mim, queimavam-me a carne, como se sangrassem, ainda. Não desejava, por isso, voltar a ser político. Insistiu no mesmo propósito. "Eu era o homem para a função. Teria a virtude de arrebanhar, entre outras, as principais famílias, dali, notadamente as Souto, Dourado e Branco".

Venceu-me. No dia seguinte viajei para Garanhuns. Reuni parentes e amigos. Expus a situação. Alguns me acompanharam, outros não. Não desanimei, porém. Meti a cara. Aproximaram-se as  eleições: candidato a governador, o meu eminente amigo Alexandre José Barbosa Lima Sobrinho. Fui, entre outros, candidato a deputado estadual. Contra mim, o "capitão" Mário Lira, o antigo chefe da  revolução, em Garanhuns. Disputamos o pleito. Prélio duro, violento. Sai vitorioso, tanto na eleição de governador como na minha. O "capitão" ficou na primeira suplência, mas, com a morte de um deputado, por Caruaru, passou a titular da representação. Sucedeu, porém, que, embora eleito, fiquei como o último colocado na minha legenda (PSD), por isto na dependência de uma eleição suplementar que teria de se processar, logo mais, visto que foi anulada a votação de várias urnas em Panelas, um dos redutos com os quais contava para minha eleição. Processou-se a suplementar. A maior desgraça que pode acontecer a um candidato é ficar na dependência desse segundo pleito. Ainda sustento a opinião de que é muito melhor ir, logo, para a "Assembleia de Deus", como foi o meu caso, recente, do que  aguardar os incertos e difíceis votos dessas urnas. Eu, porém, que havia obtido o vigésimo quarto lugar na minha legenda, subi, com o segundo resultado, para o décimo quinto, se não me falha a memória. Devi esse sucesso ao chefe pessedista daquele município, José Rufino de Melo a quem, não obstante arrufos que nos separaram, algumas vezes, dado seu temperamento esquisito, ainda hoje, continuo a proclamar que, se fui deputado em quatro legislaturas (16 anos) assim devo isto àquele valoroso chefe político. É a força daquele meu velho sentimento de eterna gratidão aos que  me servem. Repito: nunca mordi, nem mesmo cuspi a mão que me foi benfeitora, como sucede aos ingratos. Reelegi-me em 1946, em 1950, em 1954, e em 1958 por votação sempre crescente. Em 1962 fui esquecido...

Fonte: Memória Brancas / Elpídio Branco / Recife - 1963.

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