quinta-feira, 4 de março de 2021

Revelação VI

Luzinette Laporte de Carvalho (foto)*

Na tentativa maior da comunicação terei que  desvelar-me. (O que implica desvelar-te.) Estarei nua no sentido metafísico. Pouco importa que os metafísicos afirmem que a nudez não é  possível senão quando... Pois estarei. Eu me desfarei de  todas as camadas que me cobrem. Uma a uma. São leves e diáfanas, porém mais resistentes do que folhas de aço. Sinto-as resistir sob o esforço de me descamar.

Sinto-as ligadas umas sobre as outras, como se uma força imantada as comprimisse. Só quando totalmente despida, lutarei contra o dragão. Ele me  tentará vencer com o fogo que vomita de sua boca. Tentará devorar-me, eu sei. Mas não posso fugir à minha verdade. Tenho que ir até o fundo do abismo. Tenho que  alçar-me aonde chegam as águias. Tenho quê! Não é  simplesmente uma escolha, é um imperativo.

Tenho que dizer uma coisa que fará cair as primeiras camadas que me desnudarão: busco, sempre busquei. Esta é a verdade básica. Ela só me desnudaria toda, não fossem as camadas tão resistentes. Busco sempre Alguém que é.

Esta busca não termina, pois não termina o amor. A não ser que o matemos em nós. (Este amor de que te falo não morre).

A outra verdade é que não sei se amei alguém além. A ti eu amaria, se me tivesse dado tempo. Amo-te,  no entanto, mas gostaria de que soubesse de que é nEle que fundamento meu amor por ti. Pareço contraditório, não é? Tenta, por favor, ler nas minhas palavras meu permanente conflito.

Tenho que andar sozinha, lutar sozinha, descobrir sozinha. Não te acuso: não te incluo, quase, na minha busca e nas minhas descobertas, para não ferir-te em  mim. (Tão ferido no entanto já estás. Tão ferido! Nem sei se tens condições de sobreviver. Cansei, amor. - Deixa-me chamar-te assim. Preciso chamar-te assim. Mesmo que me incompreendas e ignores minha linguagem). Tenho que dizer tudo o que me propus: não sei o que é o amor que nasce, cresce, permanece, a despeito de. (Cairão algumas camadas que me recobrem, após esta confissão?).

Um dia me fizeste crer que amava; mas para que o  amor viva é necessário clima. O meu crestou sob teu ciúme, tua possessividade, tuas infidelidades. Crestou como delicadas folhas de avencas raras, como rosas de  classe mal tratadas, que raro e de classe ele é. Não sinto nostalgia. Maior que o amor é a amizade maior. (Segundo o que chamam amor).

Eis-me perplexa, eu que sempre soube de mim. Não sinto mais o que julgara ser amor. Resta uma ternura intensa e, intermitente e constante, uma dolorosa rejeição. Dão-se em mim dois processos contrários: um , estranho, de entropia, do que se chama amor; outro, de catalização de todas as fontes da ternura. Sou apenas,  realmente, ternura. Eis o único sentimento que  permaneceu. Tudo o mais está se debatendo.

Deixa-me dizer tudo, para ser uma alma nua. Uma alma sem mais nada sobre. Uma mulher despida desnuda, livre. (Despida de todo? E a ternura?).

Por uns tempos não mais te tocarei. (Nem se pode imaginar que eu te toque..) Não falo do toque físico que é tão secundário (e essencial) para nós. Mas do outro: toque-comunicação. Vou parar. É preciso.

Não creias em mim quando de falar de amor e disser: eu te amo. Sou uma debutante da vida. Não sei como expressar o que me fazes sentir. É por isso. Também não creias quando / se eu disser que não te amo porque onde há ternura, aí estará teu coração. Ternura: paciência do amor.

O que eu quero é ser verdadeira. Dizer que te amo, seria, agora, recolocar todas as camadas que consegui remover. Dizer que não te amo é fazer o mesmo.

Digamos que vivo em conflito, que meu amor morre de inanição, que nem tu nem eu sabemos como alimentá-los, que não temos condições de fazê-lo sobreviver.

Não sei mais o que dizer-te. Poderás arguir-me: se  não há amor, por que todo este desnudamento? Porque te respeito. Creio em ti: nas tuas verdades, nas tuas mentiras, no teu jogo de esconde-esconde. Creio em tudo isso. E quero que saibas que nem por um momento me enganei ou te enganei. Apenas, quis conhecer-te bem: calei, pude constatar a verdade, a mentira, o jogo. Bem puderas ter-te dispensado de tudo isso.

E, agora mesmo, não sei se tu interessa toda esta amizade em ternura, esta verdade nua que te dou. Já não  sei mesmo qual o valor que dás ao meu ser voluntariamente desnudado diante de ti. Conscientemente desnudado.

Sei que restam placas, mas não porque eu o queira. É que não sei como retirá-las. Devolvo a razão aos metafísicos. E a ti entrego meu ser o mais desvelado que posso. Para que percebas o drama. E me defendas do dragão.

*Escritora e professora / Garanhuns, Ano 2000.

Nenhum comentário:

Postar um comentário